A aula do dia trouxe uma visão geral de profissões especificamente na indústria do som, abrangendo Cinema e TV, Rádio/Podcasts, VR/AR e outros, diferentes setores, funções semelhantes e erros comuns. Leslie Gaston-Bird, proprietária do Mix Messiah Productions e autora do livro (Audio Engineering Society Presents) Women in Audio, mostrou diferentes ocupações e as diferentes habilidades/disciplinas exigidas por cada uma delas, destacando oportunidades para profissionais de som em áreas ou mercados emergentes.
Compartilho aqui minhas notas após assistir à aula no programa ASA (clique aqui para conhecer), para que a rede de pessoas impactadas por essa iniciativa tão bonita cresça cada vez mais.
Leslie, natural do estado de Ohio/EUA, dividiu um pouco de sua história e como diferentes habilidades no áudio foram se formando ao longo dos seus 30 anos de carreira: Leslie atuou da edição manual de fitas de áudio ao tratamento digital de áudio em filmes, trabalhou em rádios e na Universidade de Denver, foi eleita vice-presidente na região oeste da Audio Engeneering Society Board of Governors (Sociedade de Engenharia de Som) e hoje faz parte da Recording Academy (ou seja, é uma das profissionais que vota nas indicações do Grammy®).
Pudemos ouvir uma reportagem gravada em um avião, onde Leslie teve que aprimorar a captação de áudio com cabos encontrados na aeronave para que o barulho do voo não impedisse a inteligibilidade das falas do repórter, ela também contou os desafios de se adaptar em um mercado em constante evolução, como ela produziu várias pesquisas e levou alunos para estudar o som na cúpula de um planetário, produzindo uma experiência fantástica para quem estaria observando o céu.
Profissões
A primeira profissão apresentada foi Music Producer (Produtor Musical), que é diferente do Produtor Fonográfico que vimos na primeira aula do programa (clique aqui para ler): o music producer tem um papel colaborativo na equipe, é quem dirige a produção de um fonograma, como um chefe de cozinha ou um diretor de cinema. Leslie cita produtoras musicais que ela chama de “Triple Threat“: mulheres que tocam, gravam e produzem (são artistas, produtoras e engenheiras de som, como alguém que escreve, atua e produz um filme).
- Linda Perry: tocou piano, fez a engenheira e a produção de “Can’t Let Go” (Adele);
- Kim Deal: artista solo, dona de um estúdio onde está produzindo uma série de vinis 7 polegadas;
- Joan Armatrading: artista de grande sucesso nos anos 80, proprietária do Bumpkin Studio, produtora e engenheira de som;
- Sudan Archives: violinista, engenheira e produtora do próprio trabalho, por exemplo o álbum Athena;
Skills to pay the bills
A segunda profissão apresentada foi Sound Engineer (Engenheira de Som), para a qual Leslie ressalta a importância de se desenvolver a escuta crítica, que pode ser treinada com a prática (e com o programa sound gym) e é muito útil para reconhecer frequências, velocidades de ataque, taxas de compressão etc. (parâmetros específicos da edição sonora), recomendando o livro Audio Production and Critical Listening, de Jason Corey.
Os conselhos foram: “know signal flow” (você precisa entender o caminho do sinal analógico); e entenda técnicas de microfonação, Leslie apresentou vários mapas e sugeriu o estudo deles para gravação de instrumentos, como eles interagem com o ambiente e diferentes técnicas para diferentes resultados;
Para profissões que envolvem a Mix (mixagem), Leslie indicou cursos em WomensAudioMission.org, em universidades brasileiras (ela encontrou três em São Paulo) e no LinkedIn (que tem aulas de mix online). Também comentou que a experiência na prática tem muito valor nessa área e sugeriu que as interessadas se propusessem a remixar seus filmes favoritos por diversão.
Leslie mostrou também a foto de um estúdio com azulejos acústicos na parede, citando Samantha, arquiteta apaixonada por design e acústica que se especializou e fez disso o seu trabalho, e mencionou a existência de mais de 70 organizações no mundo que apoiam mulheres no áudio, lista realizada por Liz Dobson.
A última habilidade ressaltada foi “aprender novas tecnologias”: quem tem essa habilidade pode gostar de áreas como som para games, áudio binaural, realidade virtual (VR) e aumentada (AR), som imersivo, controle e manipulação do som por luvas vestidas pelo usuário, como a Mimu Gloves, a exemplo da apresentação da compositora Imogen Heap para o Grammy de 2020, em Los Angeles.
Profissões no Áudio – Cinema e TV
Production Sound Mixer ou Location Sound Recordist: A pedido de Leslie, Karol Urban, mixadora e presidente da Cinema Audio Society, escreveu quais habilidades ela acreditava ser importantes para seu trabalho, mencionando a importância da faculdade para instruções valiosas, novas informações, contatos e colaborações, mas ressaltando a contribuição do job learning (aprendizado adquirido durante a execução profissional) para o desenvolvimento de habilidades específicas de cada trabalho.
A2: ilustrada por Jan McLaughlin operando um microfone boom em algumas séries para a HBO, o papel dessa profissional é microfonar atores, sincronizar e mixar o áudio nas câmeras, cuidar dos metadados para enviar um arquivo organizado para a equipe de pós-produção (Nota Pessoal: essa função específica também é conhecida no audiovisual como logger). Cuidar da qualidade do áudio, da invisibilidade dos aparelhos nas câmeras e trabalhar bem em equipe, sob pressão, também são responsabilidades da A2.
Tem mais: essa profissional precisa conhecer sobre frequências de rádio, muito utilizadas também por telefones e comunicadores policiais, porque elas interferem em equipamentos sem fio (microfones, por exemplo); deve saber sobre cabos de todos os tipos e como manuseá-los no set de filmagem para não atrapalhar a movimentação de pessoas e equipamentos; ter coragem para falar, porque geralmente é preciso interferir na gravação sem dizer “cut“, o trabalho do diretor, quando você identifica que algum problema no áudio vai comprometer toda a cena.
Falando em cena, a A2 deve ter consciência espacial de onde as pessoas estão e como se movimentam durante a cena, porque podem ser posicionados bem perto dos atores.
Profissões na pós-produção
Supervisora de Som: assim como Ai Ling Lee, uma das mixadoras de First Man e a primeira mulher em uma equipe vencedora de um Oscar (com sua colega Mildred), a supervisora de som entende o mood do filme desejado pelo diretor e garante que isso se refletirá no áudio. Ela deve saber como toda a cadeia de áudio funciona, conhecer todas as funções e o que é possível pedir a cada um.
Artista de Foley: representada em aula por Kelly, é quem produz os sons de cena que não são gravados durante a atuação, ou que não soaram da melhor forma, e passa horas experimentando o que poderia gerar o som ideal. Assistimos a um vídeo de Leslie operando uma mesa de som enquanto diria Kelly, que gerava sons de foley na sala ao lado. Elas se comunicam, trabalham juntas som a som até que o áudio esteja adequado e sincronizado à cena, um trabalho de curiosidade e meticulosidade.
Sound Design e editora de foley: ilustrado pela primeira mulher engenheira de áudio na Índia, Sajida Khan, a sound designer faz e trata sons que você não pode criar a partir de foleys, como grandes explosões. Deve ter um arquivo, uma biblioteca de sons e administrar isso, assim como suas fontes. Se o filme tem uma BMW, por exemplo, e você não usa o alarme da BMW no áudio, o público que dirige BMWs vai estranhar seu filme. E se forem sons que não existem no mundo real, a editora de efeitos sonoros é responsável por criá-los, como o som de um enxame de microdrones futuristas é feito a partir de escovas de dente elétricas.
Editora de Diálogos: retira ruídos sem tirar a qualidade das falas. Quando isso não puder ter um bom resultado, como quando há interferência estática ou palavras precisam ser trocadas, entra em cena a Editora ADR (automated dialogue replacement), que regrava as falas com os atores no mesmo estúdio e com os mesmos equipamentos da cena original, para que o novo áudio seja o mais parecido possível com a gravação original.
Supervisora de Música: bibliotecária com um arquivo enorme de cds, vinis, comerciais, trilhas etc. que deve administrar e vincular esses arquivos a gêneros e explicações do que o diretor espera de um produto final. A Compositora, ilustrada por Jey em uma sala cheia de teclados e partituras, escreve a música de acordo com o mood pedido pelo diretor, considerando texturas, ritmo, tensão do filme, para criar late motivs, temas, equilibrar frequências, efeitos sonoros, frases e instrumentos de acordo com cada cena.
Mixadora ou Editora de Música: Katherine Woods, em seu estúdio, trabalha cada camada e agrupa sons para a re-recording mixer construir a versão final da trilha. A Re-recording Mixer, representada por Leslie, une e avalia o trabalho de todos ou profissionais anteriores e garante que o produto seja entregue conforme as necessidades apresentadas pelo diretor inicialmente. Ela garante que a apresentação seja agradável ao diretor, como um chefe de cozinha aprova a montagem final de um prato. Também cuida para que os diálogos para cada país sejam fieis ao original, tenham a mesma intensidade.
Profissões no Áudio – Rádio e Podcasts
Broadcast Engineer: representada por Ann Charles e um mapa com todos os aparelhos e obstáculos para garantir a qualidade de som, desde a captação no estúdio até a entrada na casa do recipiente. O som deve soar melhor que as estações concorrentes, pois os ouvintes costumam sintonizar a estação com a melhor qualidade de transmissão. A diferença é que, enquanto uma engenheira de som se especializa em manusear a mesa de controle de som, microfonar e mixar o som de uma orquestra, a broadcast cuida da corrente de transmissão ao vivo.
Board operator: Leslie mostra uma estudante operando uma mesa de áudio durante jogos estudantis, alternando a transmissão da rádio entre a narração dos jogos ao vivo, efeitos sonoros e chamadas pré-gravadas.
Produtora em rádios: busca e entrevista convidados, faz edições na pré-produção, tem habilidades jornalísticas e é multitarefa (como a Super Bella fez no nosso programa Profissão Compositor)
Editora em Radiodramas e Podcasts: faz edição e mix para radionovelas e podcasts. Leslie mostra uma radionovela com a qual ela trabalhou e ressalta a diferença por não precisar se preocupar em sincronizar o áudio com imagens… porque não tem imagens!
Som Imersivo
Finalizando sua aula, Leslie abordou o tema Immersive Audio (Som Imersivo), seu foco de trabalho nos últimos anos, definindo como “sound all arround“, som vindo de todas as direções, distribuído em um ambiente com caixas de som em cima, em baixo e por todos os lados para recriar uma experiência como a que acontece na natureza. Ela também mencionou trilhas para jogos de realidade virtual e aumentada, e músicas de realidade virtual e aumentada, mostrou formas de distribuir ou movimentar o som dos seus instrumentos digitalmente para orientar os movimentos do público, utilizando diferentes saídas de som.
Destaque para um microfone com 17 a 19 cápsulas ao redor, como um globo, para você colocar no centro da sala enquanto toca seus instrumentos, e ele é capaz de gerar uma gravação imersiva. Sabiam que existe uma categoria no Grammy for surround audio (Beyoncé).
Leslie finaliza sua apresentação mostrando que há menos de 10% de mulheres nesse mercado, apresentando o projeto em que trabalha agora, uma pesquisa de mentoria para áudio imersivo. Seu desejo é criar um espaço seguro, predominantemente feminino (exatamente para aumentar o percentual de mulheres na indústria do áudio imersivo), acessível e que cubra o maior número de frentes possível sobre áudio (do binaural ao 22.2). Ela oferece uma experiência bastante prática para quem tiver interesse em participar, como PHD na Surrey University (Doutoranda na Universidade de Surrey). Se colocou à disposição para participar de lives e workshops no Brasil, e está acessível pelo email l.gaston-bird@surrey.ac.uk
LINKS PARA REFERÊNCIA E ESTUDOS:
Projeto liderado por Leslie na Universidade de Surrey (clique para abrir)
Livro: Women in Audio (Audio Engineering Society Presents), Leslie Gaston-Bird (Amazon)
Livro: Audio Production and Critical Listening, Jason Corey (Amazon)
Curso: WomensAudioMission.org
Leslie (AMPS, MPSE) é uma engenheira de áudio britânica com certificado Dante Nível 3, especializada em mixagem de regravação 5.1 (dublagem) e edição de som. Ela foi dirigente da Audio Engineering Society e é autora do livro Women in Audio. Leslie é membro da Recording Academy (The Grammys®), membro e conselheiro da Association of Motion Picture Sound (AMPS) e membro da Motion Picture Sound Editors (MPSE). Trabalhou para a National Public Radio (Washington, D.C.), a Colorado Public Radio, a Colorado Symphony Orchestra, a Post Modern Company e foi professora associada titular na Universidade do Colorado em Denver.

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