ASA 203: Podcasts, Audiodocs e Audiodramas com Zakia Sewell

Como a narrativa, o tom e as pessoas convidadas vão influenciar no resultado do seu podcast ou áudio-documentário, e quais são as diferenças entre esses formatos? Compartilho com você minhas anotações sobre a aula da DJ britânica Zakia Sewell, no programa ASA (clique para conhecer).

Zakia é DJ, radialista, escritora e produtora de documentários para rádio e podcasts há 7 anos. Formada em literatura inglesa, uniu o interesse em pesquisa com um lado mais criativo no trabalho em rádios. Começou como estagiária na Cast Iron Radio, uma produtora em Londres, que produzia áudio-documentários para rádios como a BBC 3 e 4, canais mais formais e tradicionais.

Recentemente ela também atende a Tate, uma série de galerias de arte no Reino Unido para quem produz podcasts como freelancer, a Resident Advisor, empresa que vende ingressos para eventos de música eletrônica, e outras empresas dentro do campo de artes, música e cultura, assim como produz e apresenta seu próprio programa, o Breakfest Show, na rádio independente online NTS, cobrindo histórias culturais pessoais ou da comunidade que foram esquecidas ou mal interpretadas, dando um lugar a essas pessoas na sua plataforma.

Narrativa

Em ambas as situações, falando ao vivo em uma rádio ou trabalhando em um projeto mais planejado, como o podcast, você precisa construir uma narrativa e definir suas características. Ter clareza da sua ideia é muito importante para a comunicação, ao vivo para a sua audiência, ou no seu pitching para uma plataforma ou produtora.

Algumas temáticas dariam mais trabalho para transmitir sem imagens, por exemplo: você conseguiria fazer uma matéria sobre tipos de tecido apenas em áudio? Conseguiria formular um podcast a partir de algo sem som ou ruídos, com grande apelo visual? Já em situações de pitching, poderia existir um grande valor em elementos de individualidade e singularidade que levariam ao patrocínio de uma matéria mais complicada?

Você pode encontrar respostas para essas perguntas a partir de reflexões como “esse tema já foi contado nesse formato específico? Qual é a relevância da história agora? Qual seria a ressonância com o público agora? E por quê você quer contar essa história? Por que você? Que relação tem com o tema?” Vale refletir sobre como e quanto as pessoas a quem você tem acesso vão interferir no resultado da sua entrevista, por exemplo, se você entrevista um familiar de um artista, vai ter o ponto de vista do familiar, e não do artista. Se o apresentador tem alguma relação pessoal com a história contada, isso afeta o resultado do seu produto.

Em relação aos elementos, vai ter música? Trilha sonora? Vai ser uma entrevista mais formal ou mais descontraída? O apresentador vai saber fazer pequenas introduções e comentários que ajudem o ouvinte a entender o áudio, como dizer “estou aqui com tal pessoa”? Vai ser um episódio único ou uma série distribuída por episódios? Deve haver uma estrutura interna em cada episódio e uma ideia de como ela vai se desenvolver nos próximos, a velocidade, o tempo de duração etc. Essas decisões devem ser baseadas em como a história seria melhor contada.

Exemplos práticos

Ouvimos um trecho do segundo episódio de My Albion (2020), áudio-documentário de quatro partes produzido por Zakia para a BBC Radio 4, sobre identidade nacional britânica, folclore e política. Pensando nos elementos ouvidos, temos: uma entrevista durante um passeio turístico, com sons de caminhada, música e narração sobreposta, resultando em uma narrativa que se desdobra naturalmente, conduzindo a audiência nesse passeio histórico que é fisicamente feito durante a gravação do material.

Outro documentário para a BBC foi feito em Dakar, Senegal, aproveitando a viagem de produtores de música eletrônica para visitar uma tribo de percussionistas. O resultado é diferente do ouvido em My Albion, tendo elementos sonoros que traduzem o silêncio, como grilos cantando, cliques eletrônicos e diferentes pessoas falando no idioma local, uolofe, enquanto a apresentadora compara a sua produção de música no computador e a dificuldade de traduzir sentimentos a partir de uma máquina, e percebemos que os beeps que ouvimos são cliques de um metrônomo.

Zakia mostra que a percussão da tribo não tem nada a ver com a sua forma linear e estruturada de música virtual – é orgânica, incrível de assistir, perfeitamente sincronizada entre pensamento e execução. A tentativa de traduzir uma forma de música para a outra foi além da fala, mesclando os elementos da natureza com os cliques do computador desde o início do episódio, e ressaltando o aspecto percussivo já presente no discurso dos nativos.

Foi um episódio muito mais intuitivo e lúdico de construir, com planejamento, porém mais liberdade para aplicar ideias sentidas no momento em que o documentário era gravado. Menos racional, com menos explicações e mais construções musicais.

Outro exemplo de produto foi o podcast produzido para a Boiler Room, uma plataforma de streaming diversificada, sobre o gênero musical UK Garage, um tipo de House Music com toda uma cena própria na comunidade britânica entre os anos 90 e 2000. O episódio ouvido, dessa vez, tem música o tempo todo, depoimentos de pessoas que viveram a experiência e da jornalista Emerald Lewis, que também é DJ e aposta muito no gênero hoje, falando sobre como teria sido a cena, provocando uma imersão apaixonada para o ouvinte. É uma matéria leve, divertida e informal, diferente das matérias produzidas para a BBC.

Diferenças

Há uma pequena diferença entre o podcast e o documentário para rádio: o documentário é feito para rádios públicas, transmitidos ao vivo e até recentemente não eram arquivados, enquanto o podcast pode ser ouvido a qualquer momento em uma plataforma de streaming e isso interfere na forma como o ouvinte percebe o produto.

Outra diferença está no financiamento dos documentários pelas rádios, enquanto os podcasts são patrocinados por marcas como o Spotify ou Audible, ou ainda podem ser começados com baixo investimento pessoal até que seja formado um arquivo para buscar patrocinadores dos próximos episódios (porque esse é o objetivo, nós não devemos pagar para fazer produtos que o público vai consumir gratuitamente).

O tom dos dois produtos muda bastante dependendo do objetivo, mas o podcast tente a ser mais informal por ser gravado em casa. O pagamento para a produção de um áudio-documentário é maior, e com isso as possibilidades de equipe e material, enquanto o podcast, sendo limitado no orçamento, tende a trazer uma discussão entre duas pessoas com uma trilha sonora ao fundo.

Workflow

Zakia compartilha sua linha do tempo de trabalho, que se resume a:

  • Pesquisar, fazer leituras, telefonar para pessoas e buscar informações sobre o seu assunto;
  • Escrever um cronograma com datas como “quando entregar” para se organizar melhor;
  • Montar o roteiro decidindo o ângulo da sua narrativa, como você vai contar a história, qual voz seria a mais importante;

Depois dessa etapa, viria a parte que envolve outras pessoas:

  • Escolher os colaboradores depois de ter uma boa base do seu produto – quem são os melhores profissionais para contar a história do jeito que você quer?;
  • Gravar as entrevistas;

Depois da coleta dos materiais, podem surgir algumas alterações no seu projeto inicial:

  • Ouvir as gravações, transcrever com a minutagem e começar a montar a sua história com as melhores partes do que você tem, fazendo as adaptações necessárias caso algo seja selecionado fora do seu roteiro inicial;
  • Editar (no software gratuito Reaper ou Audacity) e ir construindo seu áudio sem pequenos detalhes por enquanto, divirta-se!;
  • Montar a introdução e a sua linha de narrativa ou os blocos de conteúdo, dependendo da sua matéria e do seu objetivo;
  • Analisar lacunas entre os blocos e preenchê-las adaptando o roteiro, adicionar elementos finais, mixar e entregar à engenharia de som.

Mensagem final

Para terminar, Zakia fala sobre usar o equipamento que você tem disponível em mãos, compartilhando o que ela usa: o software Reaper e um gravador de áudio zoom H4n (mas que você pode começar usando seu celular, em uma abordagem mais independente como um primeiro passo, um rascunho de um trabalho que vai evoluir ao longo dos episódios e da conquista de recursos financeiros).

Algumas recomendações para se inspirar foram: os documentários da Lights Out series, encontráveis na BBC radio 4 online; Short Cuts, série de Eleanor McDowell pela produtora Falling Tree, documentários curtos em formatos e estilos diferentes apresentados por Josie Long em várias partes do mundo; e 1619, série de documentário mais longo do New York Times sobre escravidão nos EUA.

Zakia lembra a importância de buscar manter o equilíbrio entre depoimentos de mulheres e homens, de licenciar todas as faixas de música utilizadas nos seus episódios, e finaliza a aula ressaltando a beleza dos documentários em combinar seu lado mais racional, organizacional para planejar as coisas, com seu lado criativo, intuitivo, instintivo para editar seus produtos, resultando em ideias criativas com elementos práticos e organizados.

É esse equilíbrio entre racional e emocional, essa experiência holística de corpo e mente que apaixona Zakia pela storytelling no áudio.

www.zakiasewell.co.uk

ZAKIA SEWELL – BIO

Zakia é radialista, escritora e DJ de Londres, apaixonada por música, artes, saúde mental e história. Ela produz e apresenta documentários de rádio e podcasts para plataformas como BBC Radio 4, BBC World Service, Tate e Boiler Room e cobrindo temas que vão desde percussão ancestral caribenha até esquizofrenia. Além de seu trabalho de produção de áudio, Zakia é uma colecionadora entusiasta e compartilhadora de música. Ela passou vários anos trabalhando atrás do balcão da Honest Jons Records em Londres e, enquanto trabalhava lá, conseguiu um programa agora semanal na NTS Radio, chamado Questing w/ Zakia, onde entrevista convidados e toca música de todo o mundo. Ela também é DJ em clubes e festivais em Londres e no exterior, e tocou em locais e festivais conceituados como Brilliant Corners, Corsica Studios, XOYO, Dimensions e Dekmantel. Zakia conduz regularmente workshops de rádio oferecendo conselhos e apoio a aspirantes a produtoras de rádio, e trabalhou em projetos de pesquisa criativa com arquivos e instituições de arte como Timespan, Stuart Hall Library e George Padmore Institute.

ASA 202: Liberando Sua Escrita Criativa com Miso Extra

A compositora e intérprete bilíngue Miso Extra falou sobre seu processo criativo e deu algumas sugestões para contornar bloqueios, tornando a produção independente mais autêntica e prazerosa. Abaixo compartilho minhas notas sobre a aula no programa ASA (clique aqui para conhecer).

Miso começou cantando karaokê com a família de descendência japonesa e inglesa, em Londres, e se aventurando com um teclado de brinquedo. A artista achava incrível a capacidade de as pessoas se expressarem de formas tão diversas e passou a querer se expressar de formas diversas também.

Os bloqueios de escrita ocasionais que o artista pode ter, na opinião de Miso, podem ser contornados com:

  1. Caminhadas e saídas do seu ambiente comum para encher o poço com situações positivas, amigos, família, filmes ou livros de que você gosta;
  2. Escrita livre sobre diálogos recentes, leituras, acontecimentos que te provocaram algum sentimento;
  3. Esse é um exercício pessoal da compositora: tentar escrever como se fosse um personagem do filme ou série que acabou de assistir, para tirar o julgamento e a expectativa de que as pessoas vão ouvir uma opinião sua;
  4. Abrir uma página aleatória de uma revista ou livro e selecionar palavras aleatórias até formar algum sentido do que está sendo escrito;
  5. Tocar ou ouvir em loop uma sequencia de acordes familiar ou de uma música que você gosta, improvisar letras em cima disso.

Essa última dica deu origem à música 1013. Miso fala como ela feita: utilizando um equipamento chamado SP-404, onde você coloca um sample ou grava e divide os sons em canais com efeitos prontos, depois gravando em alguma DAW, como o Ableton (relembre essa aula aqui), para tocar em loop enquanto você pensa na letra. Miso selecionou samples para percussão, acordeão, baixo e gravou a própria voz.

A bateria não teve muito espaço para edição e mixagem, mas o objetivo era mesmo ter algo lo-fi, retrô, com efeito de fita-cassete, então funcionou muito bem para a música e ajudou a construir a “espinha dorsal”.

O processo foi bastante baseado em experimentar novos sons e decidir qual se encaixava bem na música. Para escrever a letra, Miso gosta de preparar o ambiente: acende uma vela, toma um chá, abaixa as luzes… e gravar melodias aleatórias sob o loop instrumental. Só depois de selecionar os melhores trechos de melodia ela vai pensar em o que dizer com palavras.

Então toda a música se desenvolve a partir da frase originalmente em japonês “agarre-se àqueles a sua volta”, Miso explora vários sentimentos, traz um refrão conclusivo e ressalta a capacidade da música de traduzir sentimentos por si só, mesmo que o público não entenda o idioma cantado. Ela lembra que a expectativa de ser entendido pode colocar muita pressão sobre o escritor, que deve apenas se permitir escrever.

Miso encerra a aula resumindo os pontos principais que gostaria de transmitir às alunas:

  1. Use o equipamento que você tem hoje e foque no que você pode fazer com ele;
  2. Não lute contra o que você vai escrever, apenas coloque para fora sem pensar demais, depois volte para lapidar ou deixe descansar por um minuto e vá fazer outra coisa;
  3. Busque inspiração em todas as coisas, amigos, paisagens, artes, cozinha… experimente trazer seu mundo para suas músicas;
  4. Divirta-se! No momento que você parar de se divertir com o processo, você pode se afastar e voltar mais tarde, com outra mentalidade. Não é para ser inseguro e preocupado, com você e o que os outros pensam – é sobre ser verdadeiro com você mesmo.

Sobre a Artista

Inspirada em anime, no filme Driblando o Destino (2002) e hip hop das antigas, o universo de Miso Extra é um caldeirão de substâncias culturais e geracionais. Sua música explora temas que envolvem feminilidade, empoderamento feminino e herança mista. Miso combina magistralmente referências da cultura pop de diversos países para criar sua própria marca viciante de música, que ela escreveu apropriadamente como “umami para os ouvidos”. Depois de ser catapultada aos ouvidos dos fãs de música após um importante perfil publicado na revista Fader, Miso Extra recebeu várias reproduções na BBC Radio 1, BBC 6 Music e Beats 1. Suporte adicional veio de DIY, The Line of Best Fit, NME, Clash, District Magazine, Dummy, Notion e Vogue. Miso foi recentemente anunciada no line-up do The Great Escape 2022, se juntando a nomes como Bobby Gillespie & Jehnny Beth, Berwyn e Shygirl. Seu EP de estreia, com cinco faixas, Great Taste, será lançado no início de 2022 pelo selo Beatnik Creative.

ASA 201: As mulheres na música (em Bauru/SP)

O segundo módulo do programa ASA (clique aqui para conhecer) começou ressaltando o legado de 12 pioneiras da música brasileira, seleção feita e apresentada por Cláudia Assef, co-fundadora do Woman’s Music Event. Dessa vez, porém, em vez de compartilhar notas sobre a aula, trago a lista das 12 mencionadas e divido com você outras 12 mulheres da música com quem eu tive contato em Bauru/SP.

12 mulheres na música por Claudia Assef

  1. DJ Sonia Abreu (porque a DJ transforma uma música em outro produto, levando vida a outros meios)
  2. Vânia Dantas Leite (pianista, regente e produtora de música eletro-acústica)
  3. Jocy de Oliveira (pianista, compositora e escritora, responsável pela primeira apresentação de música eletrônica no Brasil, em 1961)
  4. Chiquinha Gonzaga (compositora pioneira de choro, marchinhas de carnaval e primeira maestrina do Brasil)
  5. Dona Ivone Lara (compositora de escolas de samba)
  6. Sandra Sá (intérprete, importante divulgadora da música black brasileira)
  7. Célia Vaz (compositora, arranjadora e diretora musical formada pela Berklee College of Music. NOTA PESSOAL: que violão e que voz gostosos de ouvir)
  8. Celly Campello (cantora, instrumentista e atriz, considerada a precursora do rock brasileiro)
  9. Fernanda Abreu (divulgadora da dance music carioca e de músicas produzidas por DJs)
  10. Clara Nunes (intérprete, trouxe a música de terreiro para grandes auditórios e rádios)
  11. Rosinha de Valença (violonista autodidata da Bossa Nova, gravou com grandes nomes e divulgou a música brasileira em turnês por 24 países)
  12. Dona Helena Meirelles (violonista votada por Eric Clapton para entrar no ranking 101 melhores guitarristas, da revista Guitar Hero, em 1993)

A lista abaixo menciona mulheres com as quais eu tive contato na indústria da música local e me inspiraram de alguma forma. Incentivo você a conhecer o trabalho delas mais a fundo através das redes sociais.

12 mulheres na música em Bauru/SP

  1. Mara Síntique (pianista, professora e formadora de diversos talentos na cidade, especializada no ensino de pessoas deficientes)
  2. Manu Saggioro (compositora e produtora, corresponsável pela vinda do Sonora Festival para Bauru, em 2017)
  3. Débora Neves (compositora e cantora lírica, de presença marcante e vice-campeã do programa Canta Comigo 2)
  4. Cátia Machado (compositora e intérprete, destaque em festivais de composição com músicas profundas e envolventes)
  5. Bel Balderramas (compositora, poeta e intérprete muito hábil, também atua no Projeto Junho, com o super Gabriel Goes)
  6. Ilma Brescia (intérprete da Bossa Nova, antes recolhida em Piratininga e hoje participante do The Voice Brasil Mais)
  7. Isabel Marino (compositora, intérprete e poeta, quando a Isabel canta, o ambiente se preenche)
  8. Dri Santana (compositora e intérprete com destaque em dois programas nacionais, Super Star e The Voice Brasil 7)
  9. Lu Nóbrega (intérprete de jazz e professora de técnica vocal em São Paulo)
  10. Adriana Cavalari (a Dri foi uma intérprete muito querida na cidade, nos conhecemos no Thermas de Piratininga, ela me deu bons conselhos sobre viver de música)
  11. Raíssa Foschiani (compositora e atriz multitalentosa, nova em idade, forte em potência vocal)
  12. Denise Amaral (intérprete e dona de uma voz ímpar, a especialidade da Denise é o tributo a Elis Regina)

LAUDIA ASSEF – BIO

Claudia Assef é jornalista de música, trabalhou nos principais jornais, revistas e sites brasileiros, entre eles Folha De S. Paulo, do qual foi correspondente internacional em Paris, e O Estado de S. Paulo, onde manteve uma coluna musical, entre outros. É autora dos livros “Todo DJ Já Sambou”, “Ondas Tropicais” e “O Barulho da Lua”. Esteve envolvida na curadoria de eventos como Sónar São Paulo, Skol Beats, Nokia Trends, Motomix, Virada Cultural, SP na Rua, festival SOMA, Dia da Música Eletrônica de São Paulo 2018 e 2019, Absolut Nights, New Faces on The Block, Território Hip Hop, ASA (British Council e Oi Futuro), entre outros. É sócia-fundadora do WME – Women’s Music Event – projeto com foco na mulher na música, incluindo uma conferência e uma premiação anual e está à frente do site Music Non Stop, um dos sites de música e cultura pop mais relevantes do país. Claudia é desde 2019 coordenadora do Centro Cultura Olido em SP, onde em abril de 2021 inaugurou a Galeria do DJ, primeiro espaço público da América Latina dedicado ao universo da discotecagem. Claudia também é DJ e produtora musical.

ASA 104: Branding – Desenvolvendo Sua Marca com Andreea Magdalina

O que sua música ganha quando você desenvolve sua marca artística? Como Beyoncé e empresas como Google, Coca-Cola e Starbucks se destacam no mercado comunicando seus valores em 1 segundo? Abaixo, compartilho minhas notas após assistir a mais uma aula incrível do programa ASA (clique aqui para conhecer).

A fundadora da SheSaid.So e co-fundadora do programa ASA Andreea Magdalina, que também participou da reunião de boas-vindas no início do curso (clique aqui para ler como foi), compartilhou quatro passos para o desenvolvimento de uma marca, apresentou análises de artistas e empresas que tiveram sucesso com essa iniciativa e perguntas para guiar você nesse processo.

De início, o termo branding foi definido como algo além da logo da sua marca, a soma de tudo que seu público sabe e identifica como seu, incluindo ramo de atuação, discurso e até aromas. O que faz você reconhecer a Google, a Coca-Cola ou a Nike, por exemplo? Andreea compartilhou estratégias da Coca-Cola para vender felicidade nas suas propagandas, associando a marca ao sentimento, ações como a instalação de geladeiras com formato de garrafas em estabelecimentos para venda do refrigerante, formato também presente em imagens publicitárias, com o uso da cor vermelha e um slogan curto taste the feeling (prove o sentimento).

Branding é o que as pessoas dizem de você na sua ausência

Jeff Bezos

Uma marca forte cria conexão e te diferencia da concorrência, ajuda sua música a ser reconhecida imediatamente no mercado pelos fãs (como em aplicativos de música ou diante de produtos físicos). Pense que as pessoas devem ser capazes de explicar facilmente o que você e só você faz, para isso defina e mantenha sua marca – e são os pequenos detalhes que criam confiança e o público guarda como referência.

Uma pessoa é exposta a muitos slogans de marcas por dia, por isso o ideal é oferecer uma experiência com a sua marca que incentive o engajamento. Independente se você prefere vestir uma persona quando sobe ao palco ou ser 100% você mesmo, se seu produto é a sua música, seu público deve sentir algo a mais ao interagir com seu conteúdo num todo. O público de hoje gosta de compartilhar a história de marcas e artistas, uma conexão íntima fácil de criar em tempos de rede social.

Pense na Beyoncé, por exemplo, uma das artistas mais reconhecíveis do mundo. O sentimento transmitido ao público é de que ela está sempre à frente do seu tempo, inovando, e sempre buscou a excelência e a qualidade no trabalho como um traço essencial do seu branding. Outra característica marcante é o apelido Queen B, dado pelos fãs, que depois começou a se refletir nas suas roupas, letras e videoclipes, personalidade e posicionamento, bem diferente do seu início na girls band Destiny’s Child.

4 Passos para trabalhar sua marca

1. PESQUISE

Saiba e se sinta à vontade com quem você é, o que faz, como seu projeto serve ao público, como você se diferencia, no que você é boa e vista como referência. Escreva essas respostas e atualize-as com o tempo, conforme for moldando sua marca. Vá fundo e acredite nas suas respostas, não existe muito íntimo, intimidador ou fraquezas nesse ponto, é isso que te faz único.

  • Quem eu sou?
  • Como minha música soa?
  • Com o que ou com quem eu me pareço?
  • Que tipos de emoções meu trabalho transmite e trabalha?
  • O que tenho de especial?
  • Por que estou fazendo isso? (Aqui, minha sugestão é se perguntar o porquê da sua resposta mais quatro vezes – Vitória)

A partir dessas respostas você vai identificar os diálogos ao seu redor e sobre você e encontrar seu slogan.

2. ELABORE O VISUAL

As pessoas são visuais. Geralmente essa é a primeira interação com seu trabalho, exceto quando o público ouve sua música pela primeira vez, por acaso, em uma playlist. O aspecto visual é a impressão que elas guardam de você.

Uma marca forte comunica o máximo possível no primeiro segundo de exposição, e tudo contribui para isso em você: vestuário, acessórios, cores, logotipo, tipografia, tipos de imprensa utilizada… Essa relação precisa ser uma composição harmônica, fazendo sentido entre visual, áudio e interações. Uma ferramenta para te ajudar nesse processo é o MOOD BOARD: depois de responder às perguntas do primeiro passo, busque referências visuais no YouTube, revistas, Pinterest, Instagram, fotografe exemplos no mundo real.

Outra ferramenta que vale ser conferida é a psicologia das cores, como:

  • Vermelho: cor que transmite força, paixão, novidade
  • Amarelo: cor que transmite intelectualidade, alegria, energia
  • Azul: cor que transmite lealdade, confiança, inteligência
  • Verde: cor que transmite frescor, crescimento, segurança
  • etc.

O artista ainda pode adotar um visual para cada lançamento, a fim de já ambientar seu público no universo particular do próximo show. Detalhes como logo, cores, tipografia, banners e panfletos, fotos, ilustrações, direção criativa, estilo de roupas, cabelo e maquiagem, produtos associados, conteúdo nas redes sociais e design do website são exemplos que podem sofrer alterações com esse objetivo, e excelentes ferramentas gratuitas para desenvolvimento de logos e conteúdo em redes sociais estão disponíveis, como o Canva, Logomakr, Free Logo Design, Unfold etc.

NOTA: valorize suas raízes e os elementos que demonstram de onde você veio, associando-os a elementos mais modernos para que você não dê a impressão de estar perdida no tempo.

3. DEFINA A COMUNICAÇÃO

A comunicação envolve identificar a voz e o tom da sua marca, para depois definir os canais que você vai utilizar. Como é a personalidade do seu trabalho artístico? É uma persona ou é você mesmo? Como é essa persona? Como ela fala, como se comunica com palavras? Como essas palavras estão presentes nas letras das suas músicas? Na redação das suas redes sociais?

Tendo essas respostas, consolide sua mensagem no seu site, loja, produtos, perfis e escolha plataformas que funcionem para você, entendendo que você e sua marca vão evoluir com o tempo. Não vá para o tik tok se você não se sente à vontade no tik tok agora, assim como pesquise sobre o envio de emails e mensagens pelo Whatsapp se isso fizer sentido para você. Lembre-se: Great content, great brand. Boring content, boring brand (Bom conteúdo, boa marca. Conteúdo entediante, marca entediante).

4. ADAPTE

Existe um processo até você descobrir e adaptar os elementos da sua marca, você não precisa saber tudo da noite para o dia. Então divirta-se!

Você e seu público vão evoluir com o tempo, sua marca também deve evoluir, assim como o alcance do seu conteúdo. Seja consistente, entregue, repita. Absorva as mudanças do mundo e traga seu trabalho de dentro para fora, de acordo com o seu próprio desenvolvimento como artista, sendo ativo nos canais de comunicação que você escolher.

WORK SHEET

Mais algumas perguntas para criar sua marca e permanecer presente para amigos, fãs e imprensa.

  • Como seus amigos e família descrevem a sua personalidade? Como eles descrevem suas músicas e arte em geral?
  • Existe algum artista/marca/iniciativa com o trabalho parecido com o seu? Quem?
  • E se você fosse um dos artistas famosos de hoje, quem você seria?
  • O que você quer que a sua marca fale sobre você?
  • Quem é seu cliente, parceiro e como é seu show ideais?

Passamos a maior parte do nosso tempo tentando fazer as pessoas amarem coisas quando deveríamos simplesmente fazer coisas que as pessoas amam.

Bernadette Jiwa, The Story of Telling

BIO – ANDREEA MAGDALINA (disponibilizada na plataforma da aula)

Andreea Magdalina é especialista em criar conexões entre pessoas. Atualmente vivendo entre Los Angeles e Londres, seu trabalho está enraizado na interseção de música e tecnologia com empresas como Microsoft e Mixcloud, onde imprime diversidade, equidade e inclusão por meio de seu papel como fundadora e CEO da rede Shesaid.so. Andreea tem uma vasta experiência em parcerias entre música e marcas, desenvolvimento de negócios, estratégia de marca, design de comunidade e marketing. Na Shesaid.so, onde desenvolveu uma comunidade global de mais de 15.000 mulheres, minorias de gênero e aliados na música, ela lidera vários eventos, programas de orientação, parcerias estratégicas com marcas e outras iniciativas. Andreea passou os últimos quatro anos trabalhando com agências de criação para desenvolver experiências digitais, produtos de tecnologia e parcerias estratégicas para marcas globais. Os clientes com os quais ela já colaborou incluem Google, Facebook, TikTok, Spotify, Sonos, Diageo, Absolut, Kitsune, Shondaland e British Council.

ASA 103: Home Studio e Lançamentos DIY com Emmavie

Antes mesmo de se apresentar, a inglesa resume a aula dizendo que seu home studio (estúdio caseiro) pode ser tão simples quanto um microfone REVELATOR, um MacBook e um fone de ouvido. Abaixo, compartilho minhas notas após assistir à aula “Tips and Tricks: como começar agora, simples e barato” no programa ASA (clique aqui para conhecer).

Cantora, compositora e produtora com destaque crescente em Londres, Emmavie Mbongo compartilha que, mesmo tendo gravado em grandes estúdios como o Wisseloord (Amsterdã), Abbey Road (Londres) e no estúdio pessoal na casa do DJ Jazzy Jeff, nada se compara a gravar no conforto do seu próprio home studio, onde ela conhece o equipamento e pode decidir como, quanto e até quando produzir.

Um detalhe que não posso deixar de notar é o cuidado que ela teve com a qualidade audiovisual da sua apresentação. Enquanto nas demais aulas do ASA as palestrantes falam através da câmera de seus computadores, Emmavie usou vários recursos para incluir trechos de vídeos e gravação de tela que ilustraram suas falas, garantiu uma imagem bem iluminada e trilha sonora durante toda sua palestra.

A pauta do dia foi: Building your home studio, a guide by Emmavie

  • Um home studio pra chamar de meu: aprenda a otimizar seu dinheiro e construa um oásis de criatividade em casa para música e áudio
  • Passo a passo para lançar uma música: desde a gravação de fonogramas, contrato de distribuição até marketing digital

Equipamentos essenciais para você aproveitar ao máximo

  1. Um bom computador ou notebook
  2. Interface de áudio e DAW
  3. Aparelhos de monitoramento
  4. Controladores MIDI
  5. Microfone e acessórios
  6. Outros dispositivos

Computador

Segundo Emmavie, a maioria dos produtores prefere o MacBook da Apple porque gravar e produzir músicas exige bastante da CPU da máquina. Os Macs são aparelhos já feitos para ter um bom desempenho em processos criativos e sua única desvantagem é o preço alto, mas a artista tem uma alternativa para isso.

Inicialmente, o truque de Emmavie foi personalizar um computador para jogos, equiparando seu desempenho aos melhores Macs do mercado pela metade do preço. Isso exigiu muita pesquisa e paciência porque ela precisou comprar cada componente do computador separadamente e enviar para um amigo montar, mas ela garante que valeu a pena.

Os ítens a observar na hora de escolher um modelo para seu home studio foram:

  • Muita memória;
  • Uma ótima placa de vídeo;
  • Velocidade de processamento altíssima.

Depois ela acabou adquirindo um MacBook pela necessidade de portabilidade, pelo fato de alguns aplicativos serem exclusivos para Macs (como o Logic Pro X) e pela dificuldade de ler arquivos em HDs formatados apenas para Macs, o que dificulta o trabalho com outras pessoas.

Interface de áudio e DAW

A Interface é um aparelho que, quando conectado ao computador, recebe o sinal do microfone ou instrumento elétrico no lugar da placa de áudio do computador e converte esse sinal em áudio de alta qualidade (como um arquivo no formato wave), para que seu computador e seu programa de edição e produção de áudio multipista (DAW) possam entender e reproduzir o que você gravou.

Alguns exemplos de DAW (Digital Audio Workspace, ou software de áudio digital) são os programas Logic Pro X, FL Studio, Cubase, Studio One e Ableton (que, além dos recursos de edição, também consegue realizar apresentações ao vivo incríveis).

A própria placa de áudio poderia fazer essa conversão de sinal, mas com uma qualidade muito menor. Investir em uma interface é uma boa opção porque você nunca sabe onde sua música pode chegar, como por exemplo a canção “Can’t Get Over You”, incluída em uma série da BBC, que foi produzida por Emmavie em seu quarto.

Outra vantagem da interface é a possibilidade de conectar mais de uma entrada e saída de áudio ao computador. Receber o áudio em faixas separadas na DAW, através de vários microfones na gravação de um podcast, por exemplo, ou de voz e violão tocados ao mesmo tempo, permite que você trate cada faixa individualmente na pós-produção.

Também é uma vantagem ter múltiplas saídas de áudio, o que permite o uso alternado de caixas de som e fones de ouvido com agilidade na hora de escutar suas gravações, ao mesmo tempo em que você está se gravando (é o chamado retorno do microfone). No caso de Emmavie, que utiliza interface e software feitos pelo mesmo fabricante, os controles de volume na entrada e na saída de som ainda são mais precisos por poderem ser feitos na própria interface.

Monitores

Os aparelhos de monitoramento (termo que significa “ouvir o que está sendo produzido”) são fones de ouvido e caixas de som alto-falantes. Emmavie destaca dois tipos de fones de ouvido para produtores: o fechado e o aberto

O fone fechado cobre as orelhas com uma concha completamente fechada, bloqueando o som externo do ambiente onde você está gravando e impedindo o som de “vazar”, o que faria ele ser captado pelo microfone enquanto você está se gravando (é com ele que você vai ouvir o áudio de retorno enviado pela sua interface).

O fone aberto tem a concha cheia de furinhos, o que deixa “vazar” um pouco do áudio recebido e do som externo, são excelentes na hora de mixar a música porque evitam o acúmulo de frequências baixas nos ouvidos.

Já o par de caixas de som alto-falantes te ajuda a ouvir como a sua música está soando quando ela é tocada no ambiente externo ao estúdio, por exemplo quando você está ouvindo músicas no carro, na balada ou na rua com fones de ouvido.

Alguns inconvenientes acontecem com os monitores se você monta seu home studio em um ambiente sem isolamento acústico, como o seu quarto. Eles podem ser barulhentos, incomodar outros moradores da casa e vizinhos (principalmente com as repetições do mesmo trecho de música enquanto você produz) e até não refletir o som exato da sua produção, dependendo do tamanho do seu quarto e da potência dos monitores (alguns precisam ser ouvidos a uma certa distância para entregar todas as frequências).

O conselho de Emmavie para quartos de tamanho comum (uma medida difícil de entender), é usar monitores com subwoofer (alto-falantes para baixas frequências) entre 3 e 5 polegadas. Outro conselho é optar por um par near field (de campo próximo), que já são feitos para você ouvir o máximo de frequências possível mesmo de perto (em alguns casos, você precisa se afastar para realmente ouvir frequências mais baixas enquanto você produz, e se você não faz isso, o resultado da sua música será desequilibrado).

Você deve posicionar os alto-falantes de cada lado da tela, direcionando-os para os seus ouvidos, e ter cuidado para ouvir sempre em um volume baixo para não afetar sua percepção dos agudos com o tempo (durante sua gravação e para a vida). Quando isso acontece, você acaba compensando o som que você não ouve mais reforçando frequências altas muito altas na sua música, e no dia seguinte, quando você está descansado, ela soa muito mais aguda do que você percebia.

Controlador MIDI

O MIDI (Music Instrument Digital Interface, interface de instrumentos musicais digitais) é uma tecnologia de produção e edição de sons pré-gravados ou sintetizados pelo próprio computador. O controlador MIDI é o aparelho físico (geralmente um teclado ou uma prancha com vários botões – pad) que você vai usar para tocar os sons que você vincular a cada tecla ou botão.

Por exemplo você grava o som de cada peça de uma bateria separadamente, depois vincula cada um a uma tecla do seu teclado MIDI para gravar como se estivesse tocando uma bateria, ou então é possível escolher sons disponíveis na biblioteca de sons da sua DAW ou montar suas referências brincando com parâmetros de sintetizadores. É uma coisa incrível e com muitas possibilidades.

Microfone

Emmavie sugere o microfone condensador para gravar voz, instrumentos, podcast ou vídeos para o YouTube, que tenha um diafragma grande e uma face ampla para captar todas as frequências e dinâmicas da voz sem nenhuma distorção. Bônus se ele for multidirecional com a possibilidade de configurar como unidirecional quando você quiser, porque isso pode ser útil dependendo do uso.

Você também pode usar um par de condensadores unidirecionais, com a face menor, para captar o som em stereo, o que vai ter um efeito legal na hora de distribuir os sons da sua música entre as saídas direita e esquerda dos monitores.

Alguns acessórios para aumentar a qualidade da captação:

  • Você pode incrementar seu microfone com um filtro POP, tela que ajuda na captação equilibrada de pronúncias como P e S;
  • Um filtro de reflexão vai amenizar os sons do ambiente captados pelo microfone, funcionando como uma cabine acústica (mas não tão bom quanto uma);
  • Um suporte ou pedestal é importante caso você queira tocar um instrumento ou vá falar por períodos de tempo maiores.

Acho que a descoberta dessa aula foi o microfone REVELATOR, que tem entrada USB direto para o computador, já funciona como sua própria interface e é super portátil. Dependendo do seu objetivo de produção, ele pode diminuir e muito os custos de investimento inicial.

Outros dispositivos

Alguns dispositivos podem ajudar, se você puder investir neles para seu home studio, como o HD Externo para back up das suas músicas, um aparelho chamado condicionador de energia para evitar que todos os aparelhos sejam ligados em uma mesma tomada e queimem em caso de curto-circuito (ele também elimina zumbidos ou chiados produzidos pela corrente elétrica, resultando em um som mais limpo) e um pré-amplificador, que já possui compressores e equalizadores embutidos e torna o sinal mais forte antes de chegar na interface.

E agora?

Depois de explicar cada aparelho e função, Emmavie conecta cada aparelho do seu home studio, mostrando todas as entradas e botões da interface, abre uma nova seção na DAW, garantindo que os aparelhos de entrada e saída de som estão selecionados no programa e funcionando, monta e confere o funcionamento do seu controlador MIDI e grava uma progressão de acordes simples.

Depois de terminar a gravação da música, é hora de mixar e masterizar. Ao mixar você dá os toques finais à música – edita pequenos erros, criar um balanço harmônico ente os elementos ajustando volumes e corrigindo frequências conflitantes, colocar algum efeito final etc.

Para masterizar, Emmavie sugere a contratação de um profissional, o que pode sair mais caro, a comparação com uma música do seu nicho para tentar igualar os volumes da sua música às dessa que seja sua referência, ou o uso da plataforma LANDR, site para masterizar digitalmente com comparação visual e excelente alternativa.

As sugestões de Emmavie para arte do single me surpreenderam positivamente, passando de edições em aplicativos gratuitos no celular para pesquisa de artes no Instagram através de hashtags e depois pedindo por um licenciamento não exclusivo para o artista ou empresário por DM. Ela sugere oferecer uma taxa leve a moderada pelo licenciamento não exclusivo da arte, para uso e não revenda, com o artista continuando livre para usar e vender a imagem como quiser e sendo sempre creditado por ela.

Na hora da distribuição, que é quando enviamos a música para os aplicativos de música, podemos recorrer a empresas como a própria LANDR ou ditto, cd baby etc., com destaque para a BandCamp, que vende a música diretamente ao público e remunera o artista imediatamente, tendo a possibilidade de o fã pagar um valor maior se ele quiser.

E o único conselho da compositora sobre lançamento e divulgação foi: se dê algumas semanas para criar antecipação e expectativa sobre sua nova música, publique teasers (pequenos trechos do produto) nas suas redes sociais, envie emails e mensagens promovendo seu link para pre-save. As redes sociais são a melhor ferramenta disponível hoje, são gratuitas e têm um alcance enorme.

Creators should Connect and Collaborate

“Criadores devem conectar e colaborar”, afirma Emmavie, ressaltando a importância do network com pessoas que amam e promovem músicas, como DJS e dançarinos. As dicas para isso foram:

  1. Crie danças e challenges nas plataformas através de influencers ou do seu perfil mesmo;
  2. Crie conteúdo que fale sobre você como artista porque as pessoas que gostarem da sua música vão querer te conhecer, saber do que você gosta então busque dar entrevistas, fazer lives no modelo Q&A (perguntas e respostas);
  3. Invista nos anúncios e publicações patrocinadas – é acessível financeiramente e encontra a sua audiência exata, seu nicho. Seus amigos gostam de você mas não pela sua música, especificamente. Seus fãs devem gostar da sua música porque eles já gostam de músicas semelhantes à sua, então você só precisa direcionar sua pesquisa para encontrar esse público.

BIO – EMMAVIE (disponibilizada na plataforma da aula)

Emmavie vem ganhando notoriedade como uma artista em tripla ascensão; cantando, escrevendo e produzindo suas próprias músicas com um som inconfundivelmente sensual. Em julho de 2021, Emmavie lançou um EP auto-produzido, “What’s A Diamond To A Baby”. Antes de seu lançamento, foi escolhida para se tornar embaixadora da Converse All-Star e se apresentou como tal em diversos eventos globais. Desde então, ela também teve shows esgotados. Após o lançamento de seu álbum de estreia em 2019, a música de Emmavie saltou para as telas em grande estilo com suas tracks inseridas no aclamado “I May Destroy You”, série da HBO / BBC de Michaela Coel; “Sistas” de Tyler Perry na BET; além de “Queen Sugar”, produzido por Oprah Winfrey, e “Teen Mom US 2”, da MTV.

ASA 102: Profissões No Áudio com Leslie Gaston

A aula do dia trouxe uma visão geral de profissões especificamente na indústria do som, abrangendo Cinema e TV, Rádio/Podcasts, VR/AR e outros, diferentes setores, funções semelhantes e erros comuns. Leslie Gaston-Bird, proprietária do Mix Messiah Productions e autora do livro (Audio Engineering Society Presents) Women in Audio, mostrou diferentes ocupações e as diferentes habilidades/disciplinas exigidas por cada uma delas, destacando oportunidades para profissionais de som em áreas ou mercados emergentes.

Compartilho aqui minhas notas após assistir à aula no programa ASA (clique aqui para conhecer), para que a rede de pessoas impactadas por essa iniciativa tão bonita cresça cada vez mais.

Leslie, natural do estado de Ohio/EUA, dividiu um pouco de sua história e como diferentes habilidades no áudio foram se formando ao longo dos seus 30 anos de carreira: Leslie atuou da edição manual de fitas de áudio ao tratamento digital de áudio em filmes, trabalhou em rádios e na Universidade de Denver, foi eleita vice-presidente na região oeste da Audio Engeneering Society Board of Governors (Sociedade de Engenharia de Som) e hoje faz parte da Recording Academy (ou seja, é uma das profissionais que vota nas indicações do Grammy®).

Pudemos ouvir uma reportagem gravada em um avião, onde Leslie teve que aprimorar a captação de áudio com cabos encontrados na aeronave para que o barulho do voo não impedisse a inteligibilidade das falas do repórter, ela também contou os desafios de se adaptar em um mercado em constante evolução, como ela produziu várias pesquisas e levou alunos para estudar o som na cúpula de um planetário, produzindo uma experiência fantástica para quem estaria observando o céu.

Profissões

A primeira profissão apresentada foi Music Producer (Produtor Musical), que é diferente do Produtor Fonográfico que vimos na primeira aula do programa (clique aqui para ler): o music producer tem um papel colaborativo na equipe, é quem dirige a produção de um fonograma, como um chefe de cozinha ou um diretor de cinema. Leslie cita produtoras musicais que ela chama de “Triple Threat“: mulheres que tocam, gravam e produzem (são artistas, produtoras e engenheiras de som, como alguém que escreve, atua e produz um filme).

  • Linda Perry: tocou piano, fez a engenheira e a produção de “Can’t Let Go” (Adele);
  • Kim Deal: artista solo, dona de um estúdio onde está produzindo uma série de vinis 7 polegadas;
  • Joan Armatrading: artista de grande sucesso nos anos 80, proprietária do Bumpkin Studio, produtora e engenheira de som;
  • Sudan Archives: violinista, engenheira e produtora do próprio trabalho, por exemplo o álbum Athena;

Skills to pay the bills

A segunda profissão apresentada foi Sound Engineer (Engenheira de Som), para a qual Leslie ressalta a importância de se desenvolver a escuta crítica, que pode ser treinada com a prática (e com o programa sound gym) e é muito útil para reconhecer frequências, velocidades de ataque, taxas de compressão etc. (parâmetros específicos da edição sonora), recomendando o livro Audio Production and Critical Listening, de Jason Corey.

Os conselhos foram: “know signal flow” (você precisa entender o caminho do sinal analógico); e entenda técnicas de microfonação, Leslie apresentou vários mapas e sugeriu o estudo deles para gravação de instrumentos, como eles interagem com o ambiente e diferentes técnicas para diferentes resultados;

Para profissões que envolvem a Mix (mixagem), Leslie indicou cursos em WomensAudioMission.org, em universidades brasileiras (ela encontrou três em São Paulo) e no LinkedIn (que tem aulas de mix online). Também comentou que a experiência na prática tem muito valor nessa área e sugeriu que as interessadas se propusessem a remixar seus filmes favoritos por diversão.

Leslie mostrou também a foto de um estúdio com azulejos acústicos na parede, citando Samantha, arquiteta apaixonada por design e acústica que se especializou e fez disso o seu trabalho, e mencionou a existência de mais de 70 organizações no mundo que apoiam mulheres no áudio, lista realizada por Liz Dobson.

A última habilidade ressaltada foi “aprender novas tecnologias”: quem tem essa habilidade pode gostar de áreas como som para games, áudio binaural, realidade virtual (VR) e aumentada (AR), som imersivo, controle e manipulação do som por luvas vestidas pelo usuário, como a Mimu Gloves, a exemplo da apresentação da compositora Imogen Heap para o Grammy de 2020, em Los Angeles.

Profissões no Áudio – Cinema e TV

Production Sound Mixer ou Location Sound Recordist: A pedido de Leslie, Karol Urban, mixadora e presidente da Cinema Audio Society, escreveu quais habilidades ela acreditava ser importantes para seu trabalho, mencionando a importância da faculdade para instruções valiosas, novas informações, contatos e colaborações, mas ressaltando a contribuição do job learning (aprendizado adquirido durante a execução profissional) para o desenvolvimento de habilidades específicas de cada trabalho.

A2: ilustrada por Jan McLaughlin operando um microfone boom em algumas séries para a HBO, o papel dessa profissional é microfonar atores, sincronizar e mixar o áudio nas câmeras, cuidar dos metadados para enviar um arquivo organizado para a equipe de pós-produção (Nota Pessoal: essa função específica também é conhecida no audiovisual como logger). Cuidar da qualidade do áudio, da invisibilidade dos aparelhos nas câmeras e trabalhar bem em equipe, sob pressão, também são responsabilidades da A2.

Tem mais: essa profissional precisa conhecer sobre frequências de rádio, muito utilizadas também por telefones e comunicadores policiais, porque elas interferem em equipamentos sem fio (microfones, por exemplo); deve saber sobre cabos de todos os tipos e como manuseá-los no set de filmagem para não atrapalhar a movimentação de pessoas e equipamentos; ter coragem para falar, porque geralmente é preciso interferir na gravação sem dizer “cut“, o trabalho do diretor, quando você identifica que algum problema no áudio vai comprometer toda a cena.

Falando em cena, a A2 deve ter consciência espacial de onde as pessoas estão e como se movimentam durante a cena, porque podem ser posicionados bem perto dos atores.

Profissões na pós-produção

Supervisora de Som: assim como Ai Ling Lee, uma das mixadoras de First Man e a primeira mulher em uma equipe vencedora de um Oscar (com sua colega Mildred), a supervisora de som entende o mood do filme desejado pelo diretor e garante que isso se refletirá no áudio. Ela deve saber como toda a cadeia de áudio funciona, conhecer todas as funções e o que é possível pedir a cada um.

Artista de Foley: representada em aula por Kelly, é quem produz os sons de cena que não são gravados durante a atuação, ou que não soaram da melhor forma, e passa horas experimentando o que poderia gerar o som ideal. Assistimos a um vídeo de Leslie operando uma mesa de som enquanto diria Kelly, que gerava sons de foley na sala ao lado. Elas se comunicam, trabalham juntas som a som até que o áudio esteja adequado e sincronizado à cena, um trabalho de curiosidade e meticulosidade.

Sound Design e editora de foley: ilustrado pela primeira mulher engenheira de áudio na Índia, Sajida Khan, a sound designer faz e trata sons que você não pode criar a partir de foleys, como grandes explosões. Deve ter um arquivo, uma biblioteca de sons e administrar isso, assim como suas fontes. Se o filme tem uma BMW, por exemplo, e você não usa o alarme da BMW no áudio, o público que dirige BMWs vai estranhar seu filme. E se forem sons que não existem no mundo real, a editora de efeitos sonoros é responsável por criá-los, como o som de um enxame de microdrones futuristas é feito a partir de escovas de dente elétricas.

Editora de Diálogos: retira ruídos sem tirar a qualidade das falas. Quando isso não puder ter um bom resultado, como quando há interferência estática ou palavras precisam ser trocadas, entra em cena a Editora ADR (automated dialogue replacement), que regrava as falas com os atores no mesmo estúdio e com os mesmos equipamentos da cena original, para que o novo áudio seja o mais parecido possível com a gravação original.

Supervisora de Música: bibliotecária com um arquivo enorme de cds, vinis, comerciais, trilhas etc. que deve administrar e vincular esses arquivos a gêneros e explicações do que o diretor espera de um produto final. A Compositora, ilustrada por Jey em uma sala cheia de teclados e partituras, escreve a música de acordo com o mood pedido pelo diretor, considerando texturas, ritmo, tensão do filme, para criar late motivs, temas, equilibrar frequências, efeitos sonoros, frases e instrumentos de acordo com cada cena.

Mixadora ou Editora de Música: Katherine Woods, em seu estúdio, trabalha cada camada e agrupa sons para a re-recording mixer construir a versão final da trilha. A Re-recording Mixer, representada por Leslie, une e avalia o trabalho de todos ou profissionais anteriores e garante que o produto seja entregue conforme as necessidades apresentadas pelo diretor inicialmente. Ela garante que a apresentação seja agradável ao diretor, como um chefe de cozinha aprova a montagem final de um prato. Também cuida para que os diálogos para cada país sejam fieis ao original, tenham a mesma intensidade.

Profissões no Áudio – Rádio e Podcasts

Broadcast Engineer: representada por Ann Charles e um mapa com todos os aparelhos e obstáculos para garantir a qualidade de som, desde a captação no estúdio até a entrada na casa do recipiente. O som deve soar melhor que as estações concorrentes, pois os ouvintes costumam sintonizar a estação com a melhor qualidade de transmissão. A diferença é que, enquanto uma engenheira de som se especializa em manusear a mesa de controle de som, microfonar e mixar o som de uma orquestra, a broadcast cuida da corrente de transmissão ao vivo.

Board operator: Leslie mostra uma estudante operando uma mesa de áudio durante jogos estudantis, alternando a transmissão da rádio entre a narração dos jogos ao vivo, efeitos sonoros e chamadas pré-gravadas.

Produtora em rádios: busca e entrevista convidados, faz edições na pré-produção, tem habilidades jornalísticas e é multitarefa (como a Super Bella fez no nosso programa Profissão Compositor)

Editora em Radiodramas e Podcasts: faz edição e mix para radionovelas e podcasts. Leslie mostra uma radionovela com a qual ela trabalhou e ressalta a diferença por não precisar se preocupar em sincronizar o áudio com imagens… porque não tem imagens!

Som Imersivo

Finalizando sua aula, Leslie abordou o tema Immersive Audio (Som Imersivo), seu foco de trabalho nos últimos anos, definindo como “sound all arround“, som vindo de todas as direções, distribuído em um ambiente com caixas de som em cima, em baixo e por todos os lados para recriar uma experiência como a que acontece na natureza. Ela também mencionou trilhas para jogos de realidade virtual e aumentada, e músicas de realidade virtual e aumentada, mostrou formas de distribuir ou movimentar o som dos seus instrumentos digitalmente para orientar os movimentos do público, utilizando diferentes saídas de som.

Destaque para um microfone com 17 a 19 cápsulas ao redor, como um globo, para você colocar no centro da sala enquanto toca seus instrumentos, e ele é capaz de gerar uma gravação imersiva. Sabiam que existe uma categoria no Grammy for surround audio (Beyoncé).

Leslie finaliza sua apresentação mostrando que há menos de 10% de mulheres nesse mercado, apresentando o projeto em que trabalha agora, uma pesquisa de mentoria para áudio imersivo. Seu desejo é criar um espaço seguro, predominantemente feminino (exatamente para aumentar o percentual de mulheres na indústria do áudio imersivo), acessível e que cubra o maior número de frentes possível sobre áudio (do binaural ao 22.2). Ela oferece uma experiência bastante prática para quem tiver interesse em participar, como PHD na Surrey University (Doutoranda na Universidade de Surrey). Se colocou à disposição para participar de lives e workshops no Brasil, e está acessível pelo email l.gaston-bird@surrey.ac.uk

LINKS PARA REFERÊNCIA E ESTUDOS:
Projeto liderado por Leslie na Universidade de Surrey (clique para abrir)
Livro: Women in Audio (Audio Engineering Society Presents), Leslie Gaston-Bird (Amazon)
Livro: Audio Production and Critical Listening, Jason Corey (Amazon)
Curso: WomensAudioMission.org

Leslie (AMPS, MPSE) é uma engenheira de áudio britânica com certificado Dante Nível 3, especializada em mixagem de regravação 5.1 (dublagem) e edição de som. Ela foi dirigente da Audio Engineering Society e é autora do livro Women in Audio. Leslie é membro da Recording Academy (The Grammys®), membro e conselheiro da Association of Motion Picture Sound (AMPS) e membro da Motion Picture Sound Editors (MPSE). Trabalhou para a National Public Radio (Washington, D.C.), a Colorado Public Radio, a Colorado Symphony Orchestra, a Post Modern Company e foi professora associada titular na Universidade do Colorado em Denver.

ASA 101: Visão Geral do Setor com Cris Falcão

Para saber aonde vamos, precisamos saber quem somos e quais caminhos podemos percorrer. Assim como um estudante que deseja se tornar médico sabe que deve passar pelo vestibular, pela faculdade e por especializações, quem deseja participar da indústria da música pode começar conhecendo sua linguagem, dinâmica e caminhos possíveis.

Você quer investir em música e se sente perdido? Cris Falcão, Managing Director (diretora administrativa) da Ingrooves Brazil, deu uma aula completa de noções primárias sobre indústria da música: quem faz o quê e o que você deve fazer. Abaixo, compartilho minhas notas após assistir à aula no programa ASA (clique aqui para conhecer).

A pauta foi cadeia da música e seus profissionais – uma lição sobre as diversas profissões que compõem a engrenagem da indústria da música, e a Cris não economizou no conteúdo:
1. Indústria fonográfica
2. Streaming e distribuição de música digital
3. Indústria da música ao vivo e de turnês
4. Licenciamento e Sincronização
5. Gerenciamento de artistas
6. Indústria de Publicação Musical
7. Rádio
8. Jurídico
9. Marketing e relações públicas

Obra x Fonograma

Uma música existe a partir de uma criação com ou sem letra, chamada de composição musical/literomusical (quando há letra) ou obra. Ela envolve compositores (também chamados de autores), editoras de obras musicais (parceiras opcionais para autores) e sociedades de gestão coletiva (parceiras obrigatórias para, entre outras funções, identificar e remunerar editoras ou autores não editados). A obra pode ser explorada de várias formas e gera o direito AUTORAL.

  • A editora, por exemplo, auxilia o registro correto da obra, explora os direitos patrimoniais e os mercados possíveis para ela, ou seja, é responsável por administrar e maximizar o uso da obra, desde facilitar a gravação por terceiros até a utilização da obra em sincronizações, em produtos gráficos como livros, áudio-livros, partituras etc., tudo mediante a aprovação dos autores de cada obra. Ela ainda acompanha as rendas geradas e remunera os autores.
  • As sociedades de gestão coletiva, por sua vez, regularizam e cuidam das arrecadações do ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), que são feitas sobre os direitos por execução pública em um modelo admirado internacionalmente.

A Lei de Direito Autoral no Brasil é protetiva ao compositor, ou seja, ele sempre deve autorizar qualquer uso ou gravação de sua obra, e esse direito moral e patrimonial é protegido até 70 anos depois da sua morte. Toda vez que um artista entra em estúdio para gravar uma obra, ele já deve ter obtido a autorização dos autores. O responsável por autorizar ou receber os direitos durante esses 70 anos são os herdeiros e a editora, caso ela tenha sido autorizada no contrato estabelecido com o autor antes de sua morte.

Mas a obra não é o que escutamos nos apps de música (streaming). Uma música quando entra em uma produção musical e se torna um suporte que pode ser ouvido (físico ou digital) é chamada de fonograma. O fonograma envolve obra (e aqueles a quem ela envolve), intérpretes e músicos acompanhantes que participam da sua gravação e produtores fonográficos (intérprete, selo ou gravadora responsável financeiramente pela produção do fonograma). Quando o selo ou a gravadora estão presentes, elas também são responsáveis por explorar o fonograma de várias formas, gerando o direito CONEXO.

  • Os selos geralmente são independentes, trabalham a carreira dos artistas e recorrem a agregadoras para distribuir os fonogramas no ambiente digital. As Agregadoras/Distribuidoras/Integradoras, por sua vez, têm o papel de apenas colocar o fonograma nas plataformas de streaming e vídeo (é um processo bastante independente que pode ser acessado por artistas sem o intermédio dos selos).
  • As gravadoras, chamadas de majors, são multinacionais (Warner, Sony, Universal), exploram os fonogramas internacionalmente, também investem em gestão de carreira artística, em marketing e geralmente têm sua própria distribuidora.

Toda vez que um fonograma é tocado em rádio, streaming ou produto audiovisual, por exemplo, ele gera direitos para a obra (AUTORAIS) e para si (CONEXOS). Nesse caso, a obra recebe através dos titulares autor/editora/sociedades de gestão coletiva e o fonograma recebe através dos titulares produtores fonográficos/intérpretes e músicos acompanhantes/selo ou gravadora. A editora, nesse caso, deve ser filiada à UBEM ou ABRAMUS digital para que o autor receba os direitos gerados pela reprodução pública do fonograma ou em streaming.

Do que você precisa?

Como escolher entre assinar com um parceiro ou não? Depende do seu momento de carreira e dos seus objetivos.

  • O artista Do It Yourself (DIY) que faz a própria gestão de carreira, pode buscar apenas uma agregadora no modelo de revenue share (que tem um prazo mais longo de contrato) ou de autoatendimento (que tem uma taxa de uso variável mas maiores direitos sobre o fonograma).
  • O artista que deseja explorar sua obra em 360˚ deve procurar uma gravadora ou selo independente para ser seu parceiro de negócios e distribuir as funções administrativas, de marketing, assessoria de imprensa, investimento em rádios e direitos sobre os fonogramas. Nesse caso, ele teria mais suporte.

As agregadoras, responsáveis por colocar o fonograma nas plataformas digitais de áudio, podem estar dentro das gravadoras majors, dos conglomerados (como Ingrooves e The Orchard), ou serem independentes. Você deve pesquisar, estudar seu momento de carreira e o que cada uma pode te retornar profissionalmente. Hoje o suporte das agregadoras vai ser bastante automatizado, tecnológico, enquanto o selo/produtor fonográfico/ gravadora vai te dar um atendimento mais humano e com gestão de carreira.

Além disso, as principais plataformas de áudio no Brasil hoje (Spotify, Deezer, Apple Music, Amazon, Tidal e Youtube) têm muito mais usuários no modelo freemium que premium. Isso significa que o fonograma precisa de um consumo muito mais vasto para gerar monetização: o marketing digital deve ser estrategicamente voltado para o amplo alcance de audiência para gerar, no mínimo, 60 mil ouvintes mensais, por exemplo, e quantificar seu produto.

Se você é um artista DIY, você também precisa estudar o marketing pensando nesse consumo em larga escala. Se você tem uma gravadora ou selo, esses parceiros são responsáveis por te ajudar nesse processo. Você deve se entender como artista e seu momento de carreira para decidir como vai trabalhar.

Antes de entrar no estúdio, o primeiro passo para o músico acompanhante também é se afiliar a uma sociedade, ser identificável mundialmente. As sociedades vão arrecadar todos os direitos de execução pública, do ao vivo ao digital, e para ser identificado e receber pela arrecadação dos seus produtos você é, de certa forma, obrigado a se filiar a uma sociedade.

Essa identificação permeia todo o histórico global do intérprete e músicos/autor/produtor fonográfico no mercado, segundo a lei brasileira, portanto mantenha seu cadastro atualizado.

Outro detalhe que pede atenção é o cadastro do ISRC, o “código de barras” do fonograma. O mercado brasileiro, quando entrou no processo digital, começou com força total e sem muito critério em relação ao ISRC, isso trouxe uma prática de adotar o ISRC liberado automaticamente pelas agregadoras, chamado US. No mercado nacional chamamos ele de fake, de gringo, porque não é um código válido para a legislação brasileira e muitos dos direitos gerados pelo seu produto não vão chegar até seus titulares, então busque sempre a sua sociedade para fazer o ISRC antes de enviar a música para a distribuição digital, não utilize o liberado automaticamente.

E a burocracia?

Existem contratos que englobam tudo – obra, fonograma, merchandising, shows… ou que envolvem apenas prestações de serviços específicos, como a distribuição de um fonograma apenas, e devemos sempre saber qual produto está sendo negociado, qual é o dever das partes e por quanto tempo. Para isso, é sempre bom poder contar com um advisor ou advogado. O advogado autoral pode rever contratos, fazer a gestão autoral dos direitos, fiscalizar e analizar seus recebimentos etc.

Gravadora/Selo/Produtor Fonográfico/Editora geralmente trabalham com contratos de 5 a 10 anos, que dividem direitos e definem o papel da instituição dentro da gestão da carreira do fonograma. O contrato com editora, por exemplo, pode ser de cessão temporária ou vitalícia, enquanto a editora deve atuar para explorar a obra. Já se você assina com uma gravadora ou selo, você deve negociar o investimento em marketing, em rádio etc. – o jurídico vai proteger, reconhecer e garantir/acompanhar/fiscalizar todos os seus direitos. Independente de ter ou não um advogado, sempre leia os contratos que for assinar.

E tem mais?

No Brasil, a figura do empresário ainda é muito forte. Ele é o sócio principal do intérprete, cuida dos contratos com a gravadora se for o caso, faz a coisa acontecer, trabalha a divulgação para que o intérprete faça as melhores apresentações possíveis em shows, lives etc., o intérprete responde para ele e deve ser uma relação saudável. A grande maioria dos intérpretes hoje é DIY, então assinar ou não com um empresário é uma decisão que depende do seu momento de carreira e do quanto você conhece o mercado da música.

Outro ponto muito importante para divulgação no Brasil é a rádio, pois nem todo lugar do país tem acesso a internet de qualidade. Elas são de grande ajuda para a divulgação, mas podem não ser para remuneração, pois algumas rádios são inadimplentes, não pagam os direitos devidos ao ECAD.

A agregadora, a distribuidora, a integradora só distribui o fonograma online, não em rádios físicas – isso é papel do empresário/selo/gravadora/produtor fonográfico. A agregadora, porém, manda o fonograma para as redes sociais e isso é muito importante para a divulgação da música, porque são as plataformas de pesquisa e grande engajamento com o público. A gravadora multinacional vai fazer tudo isso, o selo vai ter uma filiação com uma agregadora para fazer isso, cada um no seu papel.

E se eu não tiver nada disso?

São mais de 70 mil lançamentos diários no Spotify global. Ser notado nessa cauda infinita (long tail) é difícil, não funciona em lançamentos de um dia pra outro, muito comuns no Brasil. A resposta da Cris para intérpretes que optam por construir uma carreira na música ao estilo DIY é: CRIATIVIDADE, PLANEJAMENTO, TEMPO E MENOS ANSIEDADE. Você deve ter um bom planejamento (marketing de estratégia). Mais que lançar sua música, trabalhar o pré-venda e o pós-venda, trabalhar a sua audiência, buscar parcerias com artistas que façam sentido no seu momento para que os dois possam alcançar novas pessoas.

Muitas vezes é mais sobre entender seu público, falar com ele e fazer campanhas criativas envolvendo o ao vivo que investir dinheiro. Por exemplo, você pode analisar seu streaming para escolher cidades onde fazer shows ao vivo, o que seria o trabalho de um Booker. O empresário ou o próprio intérprete podem ser o booker e vender shows, mas conhecer pessoas que façam esse trabalho exclusivamente e ter acesso a eles é bem difícil.

O mercado pós-pandemia intensificou a retroalimentação entre digital e ao vivo, os dois devem se conectar. Você pode aumentar a audiência no online com conteúdos digitais que levem pessoas para o ao vivo, onde você exibe um QR code para que quem está no ao vivo te siga no digital, por exemplo. Os dois precisam se completar e se alimentar para que os conteúdos digital e físico sejam consumidos.

A Assessoria de Imprensa (PR – public relations) também é um excelente investimento que pode ser feito pelo próprio músico, ou já vir no contrato com gravadoras e selos. O PR consegue divulgação em blogs, TV, lives, lives patrocinadas, branding etc. te ajudando a aumentar seu alcance, reconhecimento público e relevância dentro da indústria da música. Sem dinheiro é possível fazer isso através de uma campanha criativa de pré-save, movimentando sua fã base, usando recursos tecnológicos ou humanos (PR, empresário etc.).

Arte não é chart

Já vimos que o amplo uso do freemium torna preciso muitos plays para render algum valor relevante, mas Arte não é Chart (gráfico). Se basear nos grandes números do que é mais consumido não é um termômetro para que você consiga fazer seu trabalho chegar aonde ele deve chegar. Você precisa entender a sua fan-base, seu público alvo, porque 10 mil plays não são 10 mil ouvintes mensais fiéis que vão ao seu show, compram seus produtos etc.

Você deve olhar para o SEU trabalho, não se basear nos outros – olhar o que você produziu, o que você espera, o que você fez, o que investiu e o que gerou, contrapor isso com a sua realidade, para criar as ferramentas devidas para o alcance de sucesso desejado para você no seu momento. A música brasileira vai da América à Ásia muito bem, você deve estudar bem seus parceiros para explorar o que faz sentido para você.

As playlist editoriais, por exemplo, são definidas por pessoas que recebem as músicas da long tail e fazem uma curadoria todos os dias. Cuidado com promessas, nenhum parceiro pode te garantir a entrada em playlists, você já tem ferramentas nos próprios apps de música para fazer o seu pitch (apresentação de um produto para um cliente em potencial). O processo é o mesmo para intérpretes com 10 e 10 mil ouvintes mensais.

Playlists de terceiros também são uma opção, mas nunca invista em fake stream porque as plataformas identificam esse tipo de bots, bloqueiam a geração de receita, derrubam as músicas que você investiu tanto para produzir e torna muito difícil para você subir essas músicas de volta para as plataformas. Não é fácil chegar a um top 10 com o alcance orgânico, mas é ele que funciona e que você deve trabalhar. Cuidado com a análise dos charts e procure o crescimento sustentável. Uma música que “charteia” rápido, cai rápido. Procure o desempenho real, o atemporal, isso é mil vezes melhor que entrar e sair do ranking uma vez e ninguém se lembrar do seu conteúdo.

Mais alternativas

A lei brasileira permite o licenciado de obras e fonogramas para diversos tipos de uso (mais uma vez veja a importância de um advogado para te apoiar). Publicidade, novela e séries, por exemplo, trazem um novo alcance e geram uma remuneração melhor que o streaming. O sócio (editora, selo, gravadora, empresário) deve te ajudar nesse alcance, mas todo e qualquer uso tem que ser autorizado pelos autores.

Também o mercado ao vivo traz um universo de funções e possibilidades – temos booker, produtor executivo (que arca com orçamentos, investimentos, pagamentos etc.), técnicos diversos (de luz, som, equipamento, estruturas, manutenção e limpeza). Tanto no digital quanto no ao vivo, ter parceiros para vender seu produto facilita muito. A autogestão (DIY) pode matar um pouco a criatividade do autor, os parceiros que lidam com a burocracia não só dividem os ganhos, mas abrem portas e ajudam a manter o nível de stress baixo.

Na dúvida, lembre-se:

  1. Filie-se a uma sociedade e identifique as funções que você pode vir a cobrir (pode ser como autor, intérprete, músico acompanhante e produtor fonográfico ao mesmo tempo);
  2. Garanta que sua identificação esteja sempre correta para evitar homônimos e créditos retidos;
  3. Busque uma editora se quiser ajuda com a gestão da obra;
  4. Busque um selo/gravadora se quiser ajuda com a gestão do fonograma (lembre-se do registro de ISRC nacional)

Para finalizar, uma reflexão: A remuneração no universo digital ainda está se desenvolvendo e está hoje em: 30% para plataformas, 58% para produtor fonográfico/selo/gravadora e 12% para obra, sendo 3% do streaming (por execução pública) e 9% de direitos autorais devidos a reprodução dos fonogramas. Curiosamente, o compositor é a figura que prevalece sempre por lei, mas é o menos remunerado na cadeia, e isso vem sido discutido mundialmente.

LINKS PARA REFERÊNCIA E ESTUDOS: (encontre esse pessoal no instagram também)
ubc.org.br
abramus.org.br
ecad.org.br
portalpopline.com.br/mundo-da-musica
biolinky.co/mctmus

Cris Falcão é formada em economia pela Universidade Mackenzie com MBA em marketing pela ESPM. Em 2004 incorporou-se à Editora Fermata do Brasil e vivenciou a transformação do mercado físico para o digital, tornando-se uma especialista em Direitos Autorais. Em 2020 assumiu presidência da Ingrooves Brazil e lidera o projeto de expansão nesse território. Ela também disse que é acessível pelo instagram, fale com ela 😉