Como a narrativa, o tom e as pessoas convidadas vão influenciar no resultado do seu podcast ou áudio-documentário, e quais são as diferenças entre esses formatos? Compartilho com você minhas anotações sobre a aula da DJ britânica Zakia Sewell, no programa ASA (clique para conhecer).
Zakia é DJ, radialista, escritora e produtora de documentários para rádio e podcasts há 7 anos. Formada em literatura inglesa, uniu o interesse em pesquisa com um lado mais criativo no trabalho em rádios. Começou como estagiária na Cast Iron Radio, uma produtora em Londres, que produzia áudio-documentários para rádios como a BBC 3 e 4, canais mais formais e tradicionais.
Recentemente ela também atende a Tate, uma série de galerias de arte no Reino Unido para quem produz podcasts como freelancer, a Resident Advisor, empresa que vende ingressos para eventos de música eletrônica, e outras empresas dentro do campo de artes, música e cultura, assim como produz e apresenta seu próprio programa, o Breakfest Show, na rádio independente online NTS, cobrindo histórias culturais pessoais ou da comunidade que foram esquecidas ou mal interpretadas, dando um lugar a essas pessoas na sua plataforma.
Narrativa
Em ambas as situações, falando ao vivo em uma rádio ou trabalhando em um projeto mais planejado, como o podcast, você precisa construir uma narrativa e definir suas características. Ter clareza da sua ideia é muito importante para a comunicação, ao vivo para a sua audiência, ou no seu pitching para uma plataforma ou produtora.
Algumas temáticas dariam mais trabalho para transmitir sem imagens, por exemplo: você conseguiria fazer uma matéria sobre tipos de tecido apenas em áudio? Conseguiria formular um podcast a partir de algo sem som ou ruídos, com grande apelo visual? Já em situações de pitching, poderia existir um grande valor em elementos de individualidade e singularidade que levariam ao patrocínio de uma matéria mais complicada?
Você pode encontrar respostas para essas perguntas a partir de reflexões como “esse tema já foi contado nesse formato específico? Qual é a relevância da história agora? Qual seria a ressonância com o público agora? E por quê você quer contar essa história? Por que você? Que relação tem com o tema?” Vale refletir sobre como e quanto as pessoas a quem você tem acesso vão interferir no resultado da sua entrevista, por exemplo, se você entrevista um familiar de um artista, vai ter o ponto de vista do familiar, e não do artista. Se o apresentador tem alguma relação pessoal com a história contada, isso afeta o resultado do seu produto.
Em relação aos elementos, vai ter música? Trilha sonora? Vai ser uma entrevista mais formal ou mais descontraída? O apresentador vai saber fazer pequenas introduções e comentários que ajudem o ouvinte a entender o áudio, como dizer “estou aqui com tal pessoa”? Vai ser um episódio único ou uma série distribuída por episódios? Deve haver uma estrutura interna em cada episódio e uma ideia de como ela vai se desenvolver nos próximos, a velocidade, o tempo de duração etc. Essas decisões devem ser baseadas em como a história seria melhor contada.
Exemplos práticos
Ouvimos um trecho do segundo episódio de My Albion (2020), áudio-documentário de quatro partes produzido por Zakia para a BBC Radio 4, sobre identidade nacional britânica, folclore e política. Pensando nos elementos ouvidos, temos: uma entrevista durante um passeio turístico, com sons de caminhada, música e narração sobreposta, resultando em uma narrativa que se desdobra naturalmente, conduzindo a audiência nesse passeio histórico que é fisicamente feito durante a gravação do material.
Outro documentário para a BBC foi feito em Dakar, Senegal, aproveitando a viagem de produtores de música eletrônica para visitar uma tribo de percussionistas. O resultado é diferente do ouvido em My Albion, tendo elementos sonoros que traduzem o silêncio, como grilos cantando, cliques eletrônicos e diferentes pessoas falando no idioma local, uolofe, enquanto a apresentadora compara a sua produção de música no computador e a dificuldade de traduzir sentimentos a partir de uma máquina, e percebemos que os beeps que ouvimos são cliques de um metrônomo.
Zakia mostra que a percussão da tribo não tem nada a ver com a sua forma linear e estruturada de música virtual – é orgânica, incrível de assistir, perfeitamente sincronizada entre pensamento e execução. A tentativa de traduzir uma forma de música para a outra foi além da fala, mesclando os elementos da natureza com os cliques do computador desde o início do episódio, e ressaltando o aspecto percussivo já presente no discurso dos nativos.
Foi um episódio muito mais intuitivo e lúdico de construir, com planejamento, porém mais liberdade para aplicar ideias sentidas no momento em que o documentário era gravado. Menos racional, com menos explicações e mais construções musicais.
Outro exemplo de produto foi o podcast produzido para a Boiler Room, uma plataforma de streaming diversificada, sobre o gênero musical UK Garage, um tipo de House Music com toda uma cena própria na comunidade britânica entre os anos 90 e 2000. O episódio ouvido, dessa vez, tem música o tempo todo, depoimentos de pessoas que viveram a experiência e da jornalista Emerald Lewis, que também é DJ e aposta muito no gênero hoje, falando sobre como teria sido a cena, provocando uma imersão apaixonada para o ouvinte. É uma matéria leve, divertida e informal, diferente das matérias produzidas para a BBC.
Diferenças
Há uma pequena diferença entre o podcast e o documentário para rádio: o documentário é feito para rádios públicas, transmitidos ao vivo e até recentemente não eram arquivados, enquanto o podcast pode ser ouvido a qualquer momento em uma plataforma de streaming e isso interfere na forma como o ouvinte percebe o produto.
Outra diferença está no financiamento dos documentários pelas rádios, enquanto os podcasts são patrocinados por marcas como o Spotify ou Audible, ou ainda podem ser começados com baixo investimento pessoal até que seja formado um arquivo para buscar patrocinadores dos próximos episódios (porque esse é o objetivo, nós não devemos pagar para fazer produtos que o público vai consumir gratuitamente).
O tom dos dois produtos muda bastante dependendo do objetivo, mas o podcast tente a ser mais informal por ser gravado em casa. O pagamento para a produção de um áudio-documentário é maior, e com isso as possibilidades de equipe e material, enquanto o podcast, sendo limitado no orçamento, tende a trazer uma discussão entre duas pessoas com uma trilha sonora ao fundo.
Workflow
Zakia compartilha sua linha do tempo de trabalho, que se resume a:
- Pesquisar, fazer leituras, telefonar para pessoas e buscar informações sobre o seu assunto;
- Escrever um cronograma com datas como “quando entregar” para se organizar melhor;
- Montar o roteiro decidindo o ângulo da sua narrativa, como você vai contar a história, qual voz seria a mais importante;
Depois dessa etapa, viria a parte que envolve outras pessoas:
- Escolher os colaboradores depois de ter uma boa base do seu produto – quem são os melhores profissionais para contar a história do jeito que você quer?;
- Gravar as entrevistas;
Depois da coleta dos materiais, podem surgir algumas alterações no seu projeto inicial:
- Ouvir as gravações, transcrever com a minutagem e começar a montar a sua história com as melhores partes do que você tem, fazendo as adaptações necessárias caso algo seja selecionado fora do seu roteiro inicial;
- Editar (no software gratuito Reaper ou Audacity) e ir construindo seu áudio sem pequenos detalhes por enquanto, divirta-se!;
- Montar a introdução e a sua linha de narrativa ou os blocos de conteúdo, dependendo da sua matéria e do seu objetivo;
- Analisar lacunas entre os blocos e preenchê-las adaptando o roteiro, adicionar elementos finais, mixar e entregar à engenharia de som.
Mensagem final
Para terminar, Zakia fala sobre usar o equipamento que você tem disponível em mãos, compartilhando o que ela usa: o software Reaper e um gravador de áudio zoom H4n (mas que você pode começar usando seu celular, em uma abordagem mais independente como um primeiro passo, um rascunho de um trabalho que vai evoluir ao longo dos episódios e da conquista de recursos financeiros).
Algumas recomendações para se inspirar foram: os documentários da Lights Out series, encontráveis na BBC radio 4 online; Short Cuts, série de Eleanor McDowell pela produtora Falling Tree, documentários curtos em formatos e estilos diferentes apresentados por Josie Long em várias partes do mundo; e 1619, série de documentário mais longo do New York Times sobre escravidão nos EUA.
Zakia lembra a importância de buscar manter o equilíbrio entre depoimentos de mulheres e homens, de licenciar todas as faixas de música utilizadas nos seus episódios, e finaliza a aula ressaltando a beleza dos documentários em combinar seu lado mais racional, organizacional para planejar as coisas, com seu lado criativo, intuitivo, instintivo para editar seus produtos, resultando em ideias criativas com elementos práticos e organizados.
É esse equilíbrio entre racional e emocional, essa experiência holística de corpo e mente que apaixona Zakia pela storytelling no áudio.
www.zakiasewell.co.uk
ZAKIA SEWELL – BIO
Zakia é radialista, escritora e DJ de Londres, apaixonada por música, artes, saúde mental e história. Ela produz e apresenta documentários de rádio e podcasts para plataformas como BBC Radio 4, BBC World Service, Tate e Boiler Room e cobrindo temas que vão desde percussão ancestral caribenha até esquizofrenia. Além de seu trabalho de produção de áudio, Zakia é uma colecionadora entusiasta e compartilhadora de música. Ela passou vários anos trabalhando atrás do balcão da Honest Jons Records em Londres e, enquanto trabalhava lá, conseguiu um programa agora semanal na NTS Radio, chamado Questing w/ Zakia, onde entrevista convidados e toca música de todo o mundo. Ela também é DJ em clubes e festivais em Londres e no exterior, e tocou em locais e festivais conceituados como Brilliant Corners, Corsica Studios, XOYO, Dimensions e Dekmantel. Zakia conduz regularmente workshops de rádio oferecendo conselhos e apoio a aspirantes a produtoras de rádio, e trabalhou em projetos de pesquisa criativa com arquivos e instituições de arte como Timespan, Stuart Hall Library e George Padmore Institute.
