Para saber aonde vamos, precisamos saber quem somos e quais caminhos podemos percorrer. Assim como um estudante que deseja se tornar médico sabe que deve passar pelo vestibular, pela faculdade e por especializações, quem deseja participar da indústria da música pode começar conhecendo sua linguagem, dinâmica e caminhos possíveis.
Você quer investir em música e se sente perdido? Cris Falcão, Managing Director (diretora administrativa) da Ingrooves Brazil, deu uma aula completa de noções primárias sobre indústria da música: quem faz o quê e o que você deve fazer. Abaixo, compartilho minhas notas após assistir à aula no programa ASA (clique aqui para conhecer).
A pauta foi cadeia da música e seus profissionais – uma lição sobre as diversas profissões que compõem a engrenagem da indústria da música, e a Cris não economizou no conteúdo:
1. Indústria fonográfica
2. Streaming e distribuição de música digital
3. Indústria da música ao vivo e de turnês
4. Licenciamento e Sincronização
5. Gerenciamento de artistas
6. Indústria de Publicação Musical
7. Rádio
8. Jurídico
9. Marketing e relações públicas
Obra x Fonograma
Uma música existe a partir de uma criação com ou sem letra, chamada de composição musical/literomusical (quando há letra) ou obra. Ela envolve compositores (também chamados de autores), editoras de obras musicais (parceiras opcionais para autores) e sociedades de gestão coletiva (parceiras obrigatórias para, entre outras funções, identificar e remunerar editoras ou autores não editados). A obra pode ser explorada de várias formas e gera o direito AUTORAL.
- A editora, por exemplo, auxilia o registro correto da obra, explora os direitos patrimoniais e os mercados possíveis para ela, ou seja, é responsável por administrar e maximizar o uso da obra, desde facilitar a gravação por terceiros até a utilização da obra em sincronizações, em produtos gráficos como livros, áudio-livros, partituras etc., tudo mediante a aprovação dos autores de cada obra. Ela ainda acompanha as rendas geradas e remunera os autores.
- As sociedades de gestão coletiva, por sua vez, regularizam e cuidam das arrecadações do ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), que são feitas sobre os direitos por execução pública em um modelo admirado internacionalmente.
A Lei de Direito Autoral no Brasil é protetiva ao compositor, ou seja, ele sempre deve autorizar qualquer uso ou gravação de sua obra, e esse direito moral e patrimonial é protegido até 70 anos depois da sua morte. Toda vez que um artista entra em estúdio para gravar uma obra, ele já deve ter obtido a autorização dos autores. O responsável por autorizar ou receber os direitos durante esses 70 anos são os herdeiros e a editora, caso ela tenha sido autorizada no contrato estabelecido com o autor antes de sua morte.
Mas a obra não é o que escutamos nos apps de música (streaming). Uma música quando entra em uma produção musical e se torna um suporte que pode ser ouvido (físico ou digital) é chamada de fonograma. O fonograma envolve obra (e aqueles a quem ela envolve), intérpretes e músicos acompanhantes que participam da sua gravação e produtores fonográficos (intérprete, selo ou gravadora responsável financeiramente pela produção do fonograma). Quando o selo ou a gravadora estão presentes, elas também são responsáveis por explorar o fonograma de várias formas, gerando o direito CONEXO.
- Os selos geralmente são independentes, trabalham a carreira dos artistas e recorrem a agregadoras para distribuir os fonogramas no ambiente digital. As Agregadoras/Distribuidoras/Integradoras, por sua vez, têm o papel de apenas colocar o fonograma nas plataformas de streaming e vídeo (é um processo bastante independente que pode ser acessado por artistas sem o intermédio dos selos).
- As gravadoras, chamadas de majors, são multinacionais (Warner, Sony, Universal), exploram os fonogramas internacionalmente, também investem em gestão de carreira artística, em marketing e geralmente têm sua própria distribuidora.
Toda vez que um fonograma é tocado em rádio, streaming ou produto audiovisual, por exemplo, ele gera direitos para a obra (AUTORAIS) e para si (CONEXOS). Nesse caso, a obra recebe através dos titulares autor/editora/sociedades de gestão coletiva e o fonograma recebe através dos titulares produtores fonográficos/intérpretes e músicos acompanhantes/selo ou gravadora. A editora, nesse caso, deve ser filiada à UBEM ou ABRAMUS digital para que o autor receba os direitos gerados pela reprodução pública do fonograma ou em streaming.
Do que você precisa?
Como escolher entre assinar com um parceiro ou não? Depende do seu momento de carreira e dos seus objetivos.
- O artista Do It Yourself (DIY) que faz a própria gestão de carreira, pode buscar apenas uma agregadora no modelo de revenue share (que tem um prazo mais longo de contrato) ou de autoatendimento (que tem uma taxa de uso variável mas maiores direitos sobre o fonograma).
- O artista que deseja explorar sua obra em 360˚ deve procurar uma gravadora ou selo independente para ser seu parceiro de negócios e distribuir as funções administrativas, de marketing, assessoria de imprensa, investimento em rádios e direitos sobre os fonogramas. Nesse caso, ele teria mais suporte.
As agregadoras, responsáveis por colocar o fonograma nas plataformas digitais de áudio, podem estar dentro das gravadoras majors, dos conglomerados (como Ingrooves e The Orchard), ou serem independentes. Você deve pesquisar, estudar seu momento de carreira e o que cada uma pode te retornar profissionalmente. Hoje o suporte das agregadoras vai ser bastante automatizado, tecnológico, enquanto o selo/produtor fonográfico/ gravadora vai te dar um atendimento mais humano e com gestão de carreira.
Além disso, as principais plataformas de áudio no Brasil hoje (Spotify, Deezer, Apple Music, Amazon, Tidal e Youtube) têm muito mais usuários no modelo freemium que premium. Isso significa que o fonograma precisa de um consumo muito mais vasto para gerar monetização: o marketing digital deve ser estrategicamente voltado para o amplo alcance de audiência para gerar, no mínimo, 60 mil ouvintes mensais, por exemplo, e quantificar seu produto.
Se você é um artista DIY, você também precisa estudar o marketing pensando nesse consumo em larga escala. Se você tem uma gravadora ou selo, esses parceiros são responsáveis por te ajudar nesse processo. Você deve se entender como artista e seu momento de carreira para decidir como vai trabalhar.
Antes de entrar no estúdio, o primeiro passo para o músico acompanhante também é se afiliar a uma sociedade, ser identificável mundialmente. As sociedades vão arrecadar todos os direitos de execução pública, do ao vivo ao digital, e para ser identificado e receber pela arrecadação dos seus produtos você é, de certa forma, obrigado a se filiar a uma sociedade.
Essa identificação permeia todo o histórico global do intérprete e músicos/autor/produtor fonográfico no mercado, segundo a lei brasileira, portanto mantenha seu cadastro atualizado.
Outro detalhe que pede atenção é o cadastro do ISRC, o “código de barras” do fonograma. O mercado brasileiro, quando entrou no processo digital, começou com força total e sem muito critério em relação ao ISRC, isso trouxe uma prática de adotar o ISRC liberado automaticamente pelas agregadoras, chamado US. No mercado nacional chamamos ele de fake, de gringo, porque não é um código válido para a legislação brasileira e muitos dos direitos gerados pelo seu produto não vão chegar até seus titulares, então busque sempre a sua sociedade para fazer o ISRC antes de enviar a música para a distribuição digital, não utilize o liberado automaticamente.
E a burocracia?
Existem contratos que englobam tudo – obra, fonograma, merchandising, shows… ou que envolvem apenas prestações de serviços específicos, como a distribuição de um fonograma apenas, e devemos sempre saber qual produto está sendo negociado, qual é o dever das partes e por quanto tempo. Para isso, é sempre bom poder contar com um advisor ou advogado. O advogado autoral pode rever contratos, fazer a gestão autoral dos direitos, fiscalizar e analizar seus recebimentos etc.
Gravadora/Selo/Produtor Fonográfico/Editora geralmente trabalham com contratos de 5 a 10 anos, que dividem direitos e definem o papel da instituição dentro da gestão da carreira do fonograma. O contrato com editora, por exemplo, pode ser de cessão temporária ou vitalícia, enquanto a editora deve atuar para explorar a obra. Já se você assina com uma gravadora ou selo, você deve negociar o investimento em marketing, em rádio etc. – o jurídico vai proteger, reconhecer e garantir/acompanhar/fiscalizar todos os seus direitos. Independente de ter ou não um advogado, sempre leia os contratos que for assinar.
E tem mais?
No Brasil, a figura do empresário ainda é muito forte. Ele é o sócio principal do intérprete, cuida dos contratos com a gravadora se for o caso, faz a coisa acontecer, trabalha a divulgação para que o intérprete faça as melhores apresentações possíveis em shows, lives etc., o intérprete responde para ele e deve ser uma relação saudável. A grande maioria dos intérpretes hoje é DIY, então assinar ou não com um empresário é uma decisão que depende do seu momento de carreira e do quanto você conhece o mercado da música.
Outro ponto muito importante para divulgação no Brasil é a rádio, pois nem todo lugar do país tem acesso a internet de qualidade. Elas são de grande ajuda para a divulgação, mas podem não ser para remuneração, pois algumas rádios são inadimplentes, não pagam os direitos devidos ao ECAD.
A agregadora, a distribuidora, a integradora só distribui o fonograma online, não em rádios físicas – isso é papel do empresário/selo/gravadora/produtor fonográfico. A agregadora, porém, manda o fonograma para as redes sociais e isso é muito importante para a divulgação da música, porque são as plataformas de pesquisa e grande engajamento com o público. A gravadora multinacional vai fazer tudo isso, o selo vai ter uma filiação com uma agregadora para fazer isso, cada um no seu papel.
E se eu não tiver nada disso?
São mais de 70 mil lançamentos diários no Spotify global. Ser notado nessa cauda infinita (long tail) é difícil, não funciona em lançamentos de um dia pra outro, muito comuns no Brasil. A resposta da Cris para intérpretes que optam por construir uma carreira na música ao estilo DIY é: CRIATIVIDADE, PLANEJAMENTO, TEMPO E MENOS ANSIEDADE. Você deve ter um bom planejamento (marketing de estratégia). Mais que lançar sua música, trabalhar o pré-venda e o pós-venda, trabalhar a sua audiência, buscar parcerias com artistas que façam sentido no seu momento para que os dois possam alcançar novas pessoas.
Muitas vezes é mais sobre entender seu público, falar com ele e fazer campanhas criativas envolvendo o ao vivo que investir dinheiro. Por exemplo, você pode analisar seu streaming para escolher cidades onde fazer shows ao vivo, o que seria o trabalho de um Booker. O empresário ou o próprio intérprete podem ser o booker e vender shows, mas conhecer pessoas que façam esse trabalho exclusivamente e ter acesso a eles é bem difícil.
O mercado pós-pandemia intensificou a retroalimentação entre digital e ao vivo, os dois devem se conectar. Você pode aumentar a audiência no online com conteúdos digitais que levem pessoas para o ao vivo, onde você exibe um QR code para que quem está no ao vivo te siga no digital, por exemplo. Os dois precisam se completar e se alimentar para que os conteúdos digital e físico sejam consumidos.
A Assessoria de Imprensa (PR – public relations) também é um excelente investimento que pode ser feito pelo próprio músico, ou já vir no contrato com gravadoras e selos. O PR consegue divulgação em blogs, TV, lives, lives patrocinadas, branding etc. te ajudando a aumentar seu alcance, reconhecimento público e relevância dentro da indústria da música. Sem dinheiro é possível fazer isso através de uma campanha criativa de pré-save, movimentando sua fã base, usando recursos tecnológicos ou humanos (PR, empresário etc.).
Arte não é chart
Já vimos que o amplo uso do freemium torna preciso muitos plays para render algum valor relevante, mas Arte não é Chart (gráfico). Se basear nos grandes números do que é mais consumido não é um termômetro para que você consiga fazer seu trabalho chegar aonde ele deve chegar. Você precisa entender a sua fan-base, seu público alvo, porque 10 mil plays não são 10 mil ouvintes mensais fiéis que vão ao seu show, compram seus produtos etc.
Você deve olhar para o SEU trabalho, não se basear nos outros – olhar o que você produziu, o que você espera, o que você fez, o que investiu e o que gerou, contrapor isso com a sua realidade, para criar as ferramentas devidas para o alcance de sucesso desejado para você no seu momento. A música brasileira vai da América à Ásia muito bem, você deve estudar bem seus parceiros para explorar o que faz sentido para você.
As playlist editoriais, por exemplo, são definidas por pessoas que recebem as músicas da long tail e fazem uma curadoria todos os dias. Cuidado com promessas, nenhum parceiro pode te garantir a entrada em playlists, você já tem ferramentas nos próprios apps de música para fazer o seu pitch (apresentação de um produto para um cliente em potencial). O processo é o mesmo para intérpretes com 10 e 10 mil ouvintes mensais.
Playlists de terceiros também são uma opção, mas nunca invista em fake stream porque as plataformas identificam esse tipo de bots, bloqueiam a geração de receita, derrubam as músicas que você investiu tanto para produzir e torna muito difícil para você subir essas músicas de volta para as plataformas. Não é fácil chegar a um top 10 com o alcance orgânico, mas é ele que funciona e que você deve trabalhar. Cuidado com a análise dos charts e procure o crescimento sustentável. Uma música que “charteia” rápido, cai rápido. Procure o desempenho real, o atemporal, isso é mil vezes melhor que entrar e sair do ranking uma vez e ninguém se lembrar do seu conteúdo.
Mais alternativas
A lei brasileira permite o licenciado de obras e fonogramas para diversos tipos de uso (mais uma vez veja a importância de um advogado para te apoiar). Publicidade, novela e séries, por exemplo, trazem um novo alcance e geram uma remuneração melhor que o streaming. O sócio (editora, selo, gravadora, empresário) deve te ajudar nesse alcance, mas todo e qualquer uso tem que ser autorizado pelos autores.
Também o mercado ao vivo traz um universo de funções e possibilidades – temos booker, produtor executivo (que arca com orçamentos, investimentos, pagamentos etc.), técnicos diversos (de luz, som, equipamento, estruturas, manutenção e limpeza). Tanto no digital quanto no ao vivo, ter parceiros para vender seu produto facilita muito. A autogestão (DIY) pode matar um pouco a criatividade do autor, os parceiros que lidam com a burocracia não só dividem os ganhos, mas abrem portas e ajudam a manter o nível de stress baixo.
Na dúvida, lembre-se:
- Filie-se a uma sociedade e identifique as funções que você pode vir a cobrir (pode ser como autor, intérprete, músico acompanhante e produtor fonográfico ao mesmo tempo);
- Garanta que sua identificação esteja sempre correta para evitar homônimos e créditos retidos;
- Busque uma editora se quiser ajuda com a gestão da obra;
- Busque um selo/gravadora se quiser ajuda com a gestão do fonograma (lembre-se do registro de ISRC nacional)
Para finalizar, uma reflexão: A remuneração no universo digital ainda está se desenvolvendo e está hoje em: 30% para plataformas, 58% para produtor fonográfico/selo/gravadora e 12% para obra, sendo 3% do streaming (por execução pública) e 9% de direitos autorais devidos a reprodução dos fonogramas. Curiosamente, o compositor é a figura que prevalece sempre por lei, mas é o menos remunerado na cadeia, e isso vem sido discutido mundialmente.
LINKS PARA REFERÊNCIA E ESTUDOS: (encontre esse pessoal no instagram também)
ubc.org.br
abramus.org.br
ecad.org.br
portalpopline.com.br/mundo-da-musica
biolinky.co/mctmus
Cris Falcão é formada em economia pela Universidade Mackenzie com MBA em marketing pela ESPM. Em 2004 incorporou-se à Editora Fermata do Brasil e vivenciou a transformação do mercado físico para o digital, tornando-se uma especialista em Direitos Autorais. Em 2020 assumiu presidência da Ingrooves Brazil e lidera o projeto de expansão nesse território. Ela também disse que é acessível pelo instagram, fale com ela 😉